quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O trauma ao avesso - Éric Laurent


Trata-se de uma conferência dada por Laurent em 2002, quando ainda estávamos sob  impacto do atentado de 7 de setembro. Este texto é uma referência sobre a questão do trauma por apresentar orientações teóricas muito precisas sobre o assunto.
Para Freud, a neurose se assentava sobre uma perda primordial, a perda do objeto materno, configurando-se como “o modelo de todos os traumas”. Portanto, o objeto nunca é encontrado, mas sempre reencontrado, como ele afirma em 1925 no texto sobre “A negativa”.
Lacan retomou essa perda primordial à luz da linguística e situou o trauma na linguagem: “nós viemos ao mundo com um parasita que ele chama de inconsciente”. Uma vez que entramos na linguagem experimentamos algo que “vive diferente do vivente”. Se não somos excessivamente esmagados pelo mal-entendido de sua própria estrutura, conseguimos falar, mas experimentamos o fato de nunca mais sairmos da linguagem. Nesse ponto do ensino de Lacan, a prevalência do simbólico empurrava o real para suas bordas e, com ele, os fenômenos que se situavam fora do sentido. Aí situou o traumatismo.
Para pensar o lugar lógico do trauma em seu ensino, Lacan propõe o recurso do toro. Dessa forma é possível abordar logicamente a distância psíquica em relação ao trauma. Essa abordagem permite incluir num mesmo espaço, o que Freud teve dificuldades em aproximar, ao tentar localizar o trauma entre o evento contingente e o que é intrínseco à sexualidade.
Desde a perspectiva da linguagem inscrita no toro, Laurent aponta duas vertentes para o trauma em Lacan: a primeira, o trauma como furo no simbólico, relacionada ao primeiro ensino e, a segunda, a linguagem fazendo furo no real, o trauma ao avesso, que encontramos no último ensino de Lacan.

Texto original em francês:  http://wapol.org/ornicar/articles/204lau.htm
Texto em português extraído de Papéis de psicanálise, vol. 1, n. 1, 2014, pp. 21-28


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Clínica da instituição: O que a psicanálise contribui para a vida coletiva - Jean-Pierre Lebrun


Se podemos convir que a instituição deve sempre estar em posição de terceiro, acima de seus membros, é preciso admitir que esse terceiro, nos dias de hoje, com frequência não está mais “garantido” pela tradição. Se ele sempre esteve presente, ele doravante precisa ser inventado, ou pelo menos ser elaborado ou construído sem cessar. 
 Mas então se recoloca a questão da legitimidade dessa construção: como fazer uma instituição, não mais a partir de um estabelecimento um lugar onde nada pode se mexer e onde as trocas são fixadas pelo que é prescrito , mas a partir de um grupo, de um coletivo? Que caminho abrir que não seja puro e simples restabelecimento da autoridade de ontem, mas que, em contrapartida, reconheça a diferença dos lugares e não recuse o impossível ao qual ela nos obriga a nos confrontar? 
 O autor dá testemunho de seu percurso na vida dos grupos, da clínica que ele encontrou e da maneira como ele se apoia no trabalho da análise para fazer face ao concreto das situações. Com o apoio de Freud e de Lacan, faz dessas questões a aposta deste livro, e sem dúvida leva a pensar como reinventar a vida coletiva.

Sumário 

Apresentação
 1. Os implícitos da instituição - 
Algumas definições do que implica a instituição - Uma inversão na apreensão da instituição - A linguagem como instituição - Alguns exemplos de dificuldade institucional - Refazer a instituição
 2. Sexuação e instituição -
Sexuação e instituição - A holófrase na instituição Outra - Uma generalização dos impasses
 3. Autoridade, poder e decisão -
O ensino de Lacan - Ainda mais alguns exemplos de intervenção institucional - Competências da supervisão institucional - A crise da autoridade
 4. A mutação do laço social -
O mundo de onde viemos - O mundo para onde vamos - Fora-da-Lei e dentro-da-Lei - Os efeitos de uma reviravolta
 5. A lógica da sexuação -
Um pouco de lógica - Uma leitura do social - Uma exclusão mortífera - As fórmulas da sexuação autorizam uma leitura do político
 6. A exceção e o feminino -
O “Genghis Khan”, de Henri Bauchau - Instituir sem determinar - O que quer o não-todo? - E para o coletivo?
 7. Uma instituição onde se dispensa o pai, com a condição de servir-se dele 
 8. Um maestro - 
Uma reviravolta conseqüente - Um maestro - Um novo totalitarismo - Uma figura de exceção... excepcional! - As estruturas institucionais do ato
 Conclusão 
 Anexo Comentários sobre as fórmulas da sexuação: o verdadeiro e o falso não-todo




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Perversão - um laço social? - Contardo Calligaris (1986)



"O que me interessa é a maneira como o neurótico pode chegar a entrar numa montagem perversa que lhe torne possível uma vida social, ou seja, prender-se com outros numa mesma montagem. Mas existe realmente um fantasma neurótico. Por exemplo, quando dois neuróticos dormem na mesma cama, cada um a título de seu fantasma neurótico - é verdade que não há relação sexual - cada um faz amor com o seu Outro. E normalmente cada um fala com o seu Outro. E é tudo o que acontece. Por isso entrar numa montagem perversa é tão tentador."

Neste livro reúnem-se 3 seminários proferidos pelo psicanalista Contardo Calligaris no ano de 1986 em Salvador. A primeira, que dá nome ao livro, é entitulada "Perversão: um laço social?". A segunda trata sobre "A questão do fantasma na clínica psicanalítica", e articula fantasma e sintoma. A terceira versa sobre "Nosografia - seria possível uma nosografia psicanalítica?". Conta ainda com algumas perguntas ao final de cada seminário feita por psicanalistas presentes na plateia.




CALLIGARIS, Contardo. Perversão - um laço social? Salvador: Cooperativa Cultural J. Lacan, 1986.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Freud e o desejo do psicanalista - Serge Cottet



Qual é o desejo do analista? Esta é a pergunta crucial que o autor faz neste livro à obra do próprio Freud: nela há algo que, segundo Lacan, não foi analisado e deve ser decifrado.
Considerada na maioria das vezes como eminentemente teórica, a obra de Jacques Lacan se define precisamente por uma determinada concepção da direção da cura analítica. Assim, quando Lacan introduz a categoria do desejo do psicanalista, isto permite redimensionar uma série de elementos da prática psicanalítica de modo congruente com o pensamento freudiano mais radical.
Na falta dessa categoria, por exemplo, os analistas pós-freudianos passaram a conceber sua experiência pelo viés ilusório da contra-transferência, transformando a cura numa relação dual, baseada na intersubjetividade imaginária. Contudo, o psicanalista não ocupa na cura o lugar de sujeito (elemento que constitui a dificuldade maior para a ocupação deste lugar), mas sim o de objeto, tal como Lacan veio a demonstrar.
Fazendo ampla referência aos textos freudianos e às diversas etapas percorridas por Lacan, Serge Cottet permite ao leitor refazer esse trajeto e repensar os principais elementos que estão na base da prática da psicanálise: a transferência, a interpretação e o lugar do psicanalista. Pode-se então entender a afirmação de Lacan de que "o desejo do ana­lista é o que, em última instância, opera na psicanálise".

Este livro é fruto da tese de doutorado de Serge Cottet, defendida na Universidade de Paris VIII, na época em que Lacan era diretor do Departamento de Psicanálise.

domingo, 26 de novembro de 2017

O imaginário (contratransferência, desejo do analista e narcisismo) - Marie-Helène Brousse


Neste texto, Marie-Helène Brousse comenta sobre o conceito de transferência e contra-transferência no Seminário 1 de Lacan. Ela começa pelo que chama das duas faces da transferência, a que facilitaria o trabalho da análise, e a que parece dificultá-lo, a saber, o amor de transferência, que interessa a Lacan no capítulo 9. Brousse segue falando sobre a transferência e a contratransferência como conceitos "duplos", cuja origem é no imaginário. Uma primeira definição de contratransferência dada por Lacan é "a soma total dos preconceitos do analista", mas há outra. Lacan diz que enquanto conceituarmos o problema em termos duplos estaremos presos no imaginário. O que Lacan propõe fazer é interpretar o problema sinalizado na literatura psicanalítica como o problema da contratransferência, com seus dois eixos, o simbólico e o imaginário. Quando ele faz isso, o problema muda para o problema do desejo do analista. Se, por parte do analisando, existe amor de transferência, a resposta de Lacan é que, por parte do analista, existe o desejo do analista. Portanto, existe uma oposição entre o amor de transferência e o desejo do analista. 
Em seguida a autora apresenta uma vinheta clínica de seu trabalho psicanalítico para ilustrar e definir o problema do desejo do analista. "Não foi uma contra-transferência da minha parte. Eu realmente não tinha idéia se era bom para ela ou não continuar a análise. Eu não estava preocupada com o que era bom para ela. Eu pensei que seria muito difícil, desagradável e produziria ansiedade. O desejo do analista não é o desejo do analista como pessoa. Como uma pessoa, eu não tinha nenhum desejo em relação a ela, nenhum desejo que ela fizesse isso ou aquilo. O desejo do analista está relacionado ao suposto saber".
Depois o conceito do narcisismo é examinado. Um primeiro narcisismo, de todo ser vivo, homem e animal, um suposto narcisismo antes da linguagem, e o segundo narcisismo, o narcisismo do falasser. 

Palavras-chave: narcisismo, contra-transferência, desejo do analista

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O Imaginário
Marie-Helène Brousse


Hoje irei falar sobre narcisismo, em referência aos capítulos 9 e 10 do Seminário I, e trazendo algum material dos Escritos, em particular de "O Estágio do espelho", "Agressividade em Psicanálise" e "Observações sobre o Relatório de Daniel Lagache". Começarei com a discussão de Lacan sobre a transferência no capítulo 9. A transferência tem duas faces. Em primeiro lugar, facilita o trabalho psicanalítico e nos permite construir a história do sujeito por renovação e adição. Freud enfatizou uma segunda face de transferência, que parecia-lhe não facilitar, mas antes prejudicar, o trabalho psicanalítico. Isso é o que interessa a Lacan nesse capítulo. A transferência como um obstáculo ao trabalho analítico é diretamente discutido por Freud como amor de transferência ou transferência amorosa. Para Lacan naquele momento, o amor é sempre um fenômeno narcísico. O amor de transferência é um fenômeno narcísico que aparece no tratamento e que exige ser trabalhado.
Deixe-me dizer algo primeiro sobre transferência e contratransferência. De certa forma, a transferência e a contratransferência são conceitos duplos: um é baseado no outro. Todo conceito duplo é, de acordo com Lacan, marcado por sua origem no imaginário, o que significa sua origem no narcisismo, para falar muito aproximadamente. Assim, o problema com a contratransferência não é que Lacan não pense que ela exista - ele diz que ela existe de fato. Sua primeira maneira de defini-la é como a "soma total dos preconceitos do analista", uma expressão encontrada nos Escritos. A primeira definição de contratransferência, e é uma definição negativa, é que ela é algo que você precisa se livrar para poder agir. É algo que o analista tem para se livrar se ele não quer que suas interpretações sejam tomadas como oportunidades de identificação imaginária ou contra-identificação.
Para descartar esse duplo ponto de vista, Lacan constrói um modelo baseado no jogo da ponte. Na ponte, há quatro jogadores, e um jogador recebe o papel do manequim: em francês dizemos "la place du mort", que é bastante impressionante. Lacan diz que o analista tem que colocar-se à la place du mort (no papel ou posição do manequim / pessoa morta), indicando assim o que o analista tem a ver com sua contratransferência.
Essa é a primeira definição de contratransferência que encontramos no trabalho de Lacan. Mas há outra. Em "Direção do Tratamento" (Escritos) ele faz uma crítica muito precisa e, no entanto, geral da literatura psicanalítica. Ele define três principais orientações psicanalíticas na década de 1950 e no início da década de 1960: geneticismo, relações de objeto e identificação com o analista. Ele tenta mostrar como cada uma dessas orientações isola os problemas que pretende resolver. Ao comparar essas três orientações, ele ressalta que os problemas que estão tentando resolver são os problemas centrais da psicanálise. A questão aqui é o que o conceito de "contratransferência" é projetado para resolver. Lacan acredita que um problema real está sendo apontado pelos analistas com o termo "contratransferência", o que significa que ele mesmo não pretende fornecer uma definição de "contratransferência". Ele não considera o problema da "contratransferência" mais importante do que problemas de preconceito imaginário. Sua orientação o leva à visão de que, enquanto você conceituar esse problema, o principal problema discutido em "Direção do Tratamento", em termos duplos (transferência e contratransferência), você permanece no imaginário. E assim você não pode escapar disso. Você permanece preso em uma dinâmica de projeção, contra-projeção ou interjeição. O que Lacan propõe fazer é interpretar o problema sinalizado na literatura psicanalítica como o problema da contratransferência com seus dois eixos, o simbólico e o imaginário. Quando ele faz isso, o problema muda para o problema do desejo do analista. A partir de  "A Direção do Tratamento", o problema da contratransferência não é mais evocado como tal. Mas o problema referido por outros com o termo "contratransferência" leva Lacan a elaborar o conceito de desejo do analista. Não é uma questão de terminologia dominante, mas sim do que está em jogo no amor de transferência.
Este é um bom exemplo da maneira como Lacan trabalha com a literatura analítica de seu tempo. Ele lê isso com muito cuidado, tentando levá-lo como uma série de problemas a serem resolvidos, o que pode levá-lo a desenvolver sua própria teoria. O desejo do analista, que é absolutamente fundamental para sua elaboração da psicanálise, é a solução dele para o que se denomina "contratransferência" na literatura. Não é que ele ache que a contratransferência não exista. Ele pensa que não é o conceito apropriado com o qual explicar o amor de transferência. Se, por parte do analisando, existe amor de transferência, a resposta de Lacan é que, por parte do analista, existe o desejo do analista. Portanto, existe uma oposição entre o amor de transferência e o desejo do analista. É uma oposição entre o registro imaginário, que é natural começar com o discurso do analisando, e o registro simbólico do desejo do analista.
Deixe-me fornecer um exemplo do meu próprio trabalho analítico. Tenho visto uma paciente mulher há muito tempo. Ela fez muito progresso, e sua posição na vida mudou muito, isso pode ser visto em seu comportamento, em seus relacionamentos, etc. Mas, em certo momento, ela se estabilizou em um ponto que, na minha opinião, não era o fim da análise, embora lhe desse alguma satisfação na vida. No início de sua análise, ela sempre estava em perigo, mas depois de cinco anos de análise, ela não estava mais em perigo. Ela aceitou alguns dos constrangimentos da ordem simbólica, e tinha mais ou menos encontrado um lugar naquela ordem simbólica. Um dia ela me disse: "Eu quero parar. Não virei mais e não vou pagar você. Você é uma chatice, você é terrível".
De certa forma, pensei "por que não?" Ela estava bem. Mas no final, depois de pensar nisso, eu disse para mim mesmo: "Não, eu não quero que ela vá. Eu quero que ela fique em análise. Eu quero que ela vá mais longe". Pedi-lhe que continuasse vindo uma vez por semana. Eu disse a ela que ainda precisava trabalhar sua raiva e sua sexualidade, que não havia mudado. Eu pensei que ela era capaz de falar sobre suas fantasias sexuais, embora fosse muito difícil para ela. Esse era o meu desejo como analista. Não era o desejo dela naquele momento, era o do analista.
O que aconteceu em seguida me deu razão para acreditar que meu desejo estava bem orientado, porque naquele momento ela conheceu um homem e as coisas começaram a ficar muito difíceis para ela. Com muita angústia e dor, ela queria voltar para mais análise intensiva. O desejo do analista é diferente da contratransferência. Não é que eu quisesse que ela se casasse e tivesse filhos. O meu sentido era que ela pudesse avançar um pouco mais na análise. E se eu pensasse que ela conseguiria, eu tinha que encorajá-la a fazê-lo. O desejo do analista não é uma ânsia ou uma fantasia, não é pessoal ou individual. Está sempre relacionado a um terceiro ponto que pode ser visto na declaração "Tenho que pedir que você continue sua análise". Não é só isso que eu quero, é que eu não posso fazer o contrário do que pedi-lo. Porque você pode fazê-lo, e você diz que pode fazê-lo.
Senti que ela não deveria deixar a análise antes de ter completado alguma coisa. No início de sua análise, ela havia falado sobre uma experiência momentânea que era muito estranha, como um sonho, não uma realidade, mas quase uma experiência fora da realidade. Ela realmente não sabia se aconteceu ou não. Ela tinha uma lembrança disso, mas não podia dizer nada sobre isso. Teve apenas uma parte muito pequena em sua vida, de acordo com ela. Nessa lembrança, um homem pediu-lhe que fizesse sexo com ele. Ela disse "Ok". Eles foram para um lugar, mas ela nem conseguia se lembrar de onde estava ou como tudo tinha ido. Eles fizeram amor de uma maneira muito peculiar, ela disse, o que era muito importante para ela. Dito isso, no início de sua análise, ela nunca mais falou sobre isso e, na verdade, se recusou a fazê-lo. Pareceu-me que isso precisava ser elucidado. Enquanto não o tivesse esclarecido, senti que sua análise estava incompleta.
. O suposto saber é elaborado no setting psicanalítico. Não pelo analisando ou pelo analista, mas pela relação analítica: discurso analítico. O desejo do analista é baseado nisso. Não é o seu desejo como pessoa, mas o analista como parte do mecanismo, parte do discurso analítico. A única maneira de me orientar era lembrar e trabalhar no que ela me havia dito. Ela estava trabalhando em seu relacionamento com a ordem simbólica, o que significa com o Nome-do-Pai, e seu relacionamento com sua mãe. Ela estava trabalhando muito seu complexo de Édipo. Isso mudou sua posição. Mas ela não havia trabalhado seu gozo ou sua fantasia. Senti que não eu poderia deixá-la abandonar a análise sem confrontar sua relação com o gozo.
Passemos agora ao assunto do narcisismo. Lacan nos diz que existem duas formas diferentes de narcisismo. O primeiro é um narcisismo válido para todo ser vivo, animais e humanos: um suposto narcisismo antes da linguagem. Qual é o segundo? O segundo narcisismo, em referência ao que Lacan chama de "estágio de espelho", é o narcisismo dos seres falantes. Isso decorre do fato de que você não é apenas um ser vivo, mas também um ser falante, ou seja, você tem uma relação com a castração. Os seres falantes estão sujeitos à função de castração. Falar é sacrificar um pouco do seu gozo, que é a característica do ser vivo supostamente puro.
De certa forma, podemos dizer que existem duas formas do imaginário: um imaginário puro, próprio dos animais, e um imaginário distorcido, próprio dos seres falantes. Lacan elabora o primeiro narcisismo com referência à teoria e ética da Gestalt. Na página 3 dos Escritos, ele diz: "O fato de que a Gestalt pode ter efeitos formativos sobre os organismos é atestado por uma peça de experimentação biológica que é tão estranha à idéia de causalidade psíquica que não consegue chegar a formular seus resultados nesses termos". Lá ele fala sobre pombos fêmeas, e o fato de que ver a imagem de um pombo tem o que ele chama de "efeitos formativos" no pombo fêmea como organismo. Esse é um bom exemplo do primeiro narcisismo: um narcisismo reduzido a uma imagem e que enfatiza o poder material da imagem. Mas isso é lidar com organismos, e nós não somos organismos, somos corpos. Deve-se distinguir entre organismo, corpo e sujeito, que não são realmente a mesma coisa para Lacan. Um sujeito é o efeito da linguagem, e um corpo é o resultado do segundo narcisismo.
Isso não é cronológico de forma alguma. Você não pode dizer que você era primeiro um organismo, depois um corpo e, em seguida, um sujeito. O sujeito corresponde ao nível simbólico, o corpo ao nível imaginário e o organismo ao real. Você nunca encontra seu organismo como tal. Você o encontra muito brevemente (quanto mais breve melhor) através da sua experiência corporal e subjetiva.
"Este narcisismo inicial deve ser encontrado... ao nível da imagem real... Esta maneira de funcionar é completamente diferente no homem e nos animais, que são adaptados a um Umwelt uniforme" (Seminário I, p. 125 ). Esta primeira reação narcisista ao Gestalt, de que ele fala em "O Estádio do Espelho", é para os animais. Deve-se distinguir entre seres vivos, que inclui tanto os seres humanos e os animais, e seres falantes, que é uma divisão dentro da espécie Homo sapiens. Nunca encontramos o primeiro narcisismo em um ser falante. Ele só pode ser encontrado no reino animal. ''Para o animal há um número limitado de correspondências pré-estabelecidas entre sua estrutura imaginária e o tudo que o interessa em seu Umwelt,  isto é, qualquer coisa que seja importante para a perpetuação [...] das espécies. No homem, em contraste, a reflexão no espelho indica uma possibilidade noética original” (p. 125). Esta possibilidade não vem do imaginário, mas da correlação com a linguagem. Ela "introduz um segundo narcisismo " (p. 125). Nos homens, só lidamos com o segundo narcisismo. Uma imagem, para um ser humano, é sempre uma imagem correlacionada e regulada pela função simbólica.
Tradução: Arryson Zenith Jr.


Fonte: Reading Seminars I and II: Lacan’s return to Freud, editado por Richard Feldstein, Bruce Fink, and Maire Jaanus, State University of New York Press, 1996, p. 118-122

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A foraclusão: presos do lado de fora - Solal Rabinovitch



Uma ampla discussão sobre um dos mecanismos de negação mais importantes e decisivos para a psicanálise: a foraclusão. Implícita ao longo de todo o livro, a pergunta: "há condições de tratamento para a psicose?" 
Solal Rabinovitch aproxima as negações freudianas às estratégias do sujeito, nomeadas por Lacan. Ao manter um afastamento diferencial entre os dois campos conceituais, o freudiano e o lacaniano, a autora espera abrir um campo para a criação, um espaço a ser povoado pelas férteis questões da clínica.

Presos do lado de fora:

"Loucos, exilados, apátridas, excluídos: todos estão presos do lado de fora. Fora das fronteiras do seu país, fora dos laços da sua língua materna; fora, fora de casa. Teria havido uma casa, de onde foram expulsos? Haveria um vestígio visível, legível, dessa casa? O lugar do exílio tornou-se para eles exílio mais preciso e violento do que a partida que os levou até ali; desse exílio atual, ausentou-se a própria dor da fratura da partida; nesse exílio extinguiu-se a nostalgia daquele que poderia nomeá-lo, o Pai. Mas os verdadeiros presos do lado de fora são os loucos, para sempre exilados do seu inconsciente: não são apenas estrangeiros no seu exílio, mas também estranhos a si mesmos, estranhos à sua história, estranhos à língua da infância. Não é apenas de um país nem de uma língua que estão exilados; o nome, a voz e o pai também os abandonaram definitivamente. Uma ausência sem nome reina nesse "fora", que os tirou de uma terra e apagou do Livro. 
À exclusão corresponderá a reclusão, que localiza o estranho e fixa a sua errância. Temos que velar a cicatriz do exílio e localizar o estranho no exterior de nós, nos asilos; essa necessidade contém o desejo não-sabido de construir um interior para o que está aberto aos quatro ventos. Porque os loucos são externados em seu confinamento fora, nós os internamos; é a nossa única maneira de reconhecer, no louco, o estranho ou o excluído que é o outro para cada um de nós, no clarão súbito de uma liberdade que nós lhe invejamos porque ela nos ofusca. 
A foraclusão é o nome da fratura que os encerrou fora de toda inscrição, fora das pegadas na rota dos nossos sonhos, do céu dos nossos pensamentos, da casa da nossa dor ou da nossa alegria: longe do nosso heimlich. A foraclusão não atingiu apenas os significantes fundadores do inconsciente, ela jogou fora a sua chave para sempre; expulsou-os para longe, muito longe dos presos nesse estranho exterior, um exterior dito pelos termos unheimlich e heimlich. O centro "êxtimo" dessa ausência não pára de exilá- los de si mesmos; ele é ao mesmo tempo a alteridade de um desconhecido e o demasiado familiar de um real marcado pelo Ver freudiano. O Ver da foraclusão, tal como Lacan a extraiu de Freud, tem mais força ainda; ele sela o termo longínquo desse exterior com aquele de um não-retomo; ninguém voltará. O exílio fratura a memória; as fotografias de família desapareceram, os objetos do lar foram dispersados, não há mais marcas. Mais radical ainda que a supressão das marcas, a ausência de palavras para dizer a supressão abole uma não-marca. Apenas sobrevive a familiaridade de uma ausência desconhecida, a do exílio. 
Assim, o exterior da foraclusão converge com o não-humano de um real do interior. Fora do grupo que o Pai confina, o louco interroga a existência desse pai. Subvertendo a divisão freudiana entre fora e dentro, a topologia borromeana utilizada por Lacan a partir das letras R, S e I mostrará que o louco está fora do laço de discurso; está desligado de toda identificação com o Pai, como os anéis R, S e I: uma vez desatados, cada um deles fica livre dos dois outros. Desde antes dessa subversão pela letra, o conceito de foraclusão a fomenta: algo da ordem da linguagem, para sempre excluído para o sujeito, retoma ao real.



domingo, 12 de novembro de 2017

A teoria do parceiro - J.-A. Miller



"No início do seu ensino Lacan, colocava um problema para o sujeito: o de ter seu desejo reconhecido pelo Outro. Mas o conceito de Outro em Lacan se modifica, deixando de ser o Outro com a marca do significante fálico para aceder a um lugar de furo, de não resposta, de silêncio. O Outro sexual também se modifica e o sujeito terá que se relacionar com seu gozo, seu objeto a, semblante de objeto.
O parceiro então é o gozo; e o parceiro sexual será escolhido em função de como ele elabora seu saber sobre sua posição de exilado da relação sexual. Desta forma, é o sintoma, que passa a ocupar o lugar formal do núcleo de gozo. Surge uma nova teoria sobre o amor. Um amor que não passa pelo narcisismo, mas pelo inconsciente, ou seja, pela elucubração do saber da não relação sexual. Há o sintoma como um recurso para saber fazer com o outro sexo, que se torna um revestimento para o objeto a. O parceiro é assim o invólucro formal do núcleo de gozo. O que leva Lacan a dizer que no nível do sintoma o sujeito é sempre feliz.
Assim, se já podíamos pensar em um Deus janus, um que engana e um que não engana, podemos pensar em um objeto janus, um objeto fálico e um real, semblante de objeto. Mas também podemos falar em um sintoma janus, pois, como nos diz Miller, ele é o que não vai bem, mas é também o único lugar onde isso rola..."

Margarida Assad


Miller, J. A. (2000). Teoria do parceiro. In Escola Brasileira de Psicanálise, Os circuitos do desejo na vida e na análise (pp. 153-207). Rio de Janeiro: Contra Capa