sexta-feira, 1 de junho de 2018

A criança retardada e a mãe - Maud Mannoni



Esta obra é o resultado de longos anos de clínica. Há quinze anos estudando crianças que muitas vezes eram consideradas como incuráveis, fui levada a questionar a própria noção de debilidade. Esta não é suficientemente definida pela noção de déficit intelectual.
Eu entrara nesse trabalho sem qualquer julgamento preconcebido, e os primeiros sucessos tinham-me orientado para a distinção entre uma "verdadeira" e uma "falsa" debilidade. Hoje já não sei o que pode significar esta distinção. Fui levada a tomar uma direção completamente diferente. A procurar primeiro o sentido que pode ter um débil mental para a família, sobretudo para a mãe, e a compreender que a própria criança dava inconscientemente à debilidade um sentido comandado por aquele que lhe davam os pais. Penso que cheguei a uma abordagem psicanalítica que abre possibilidades de êxito e de desenvolvimento.
Qualquer que seja. a mãe, o nascimento de uma criança nunca corresponde exatamente ao que ela espera. Depois da provação da gravidez e do parto, deveria vir a compensação que faria dela uma mãe feliz. Ora, a ausência dessa compensação produz efeitos que vale a pena considerar, mesmo que pelo simples fato de nos introduzirem a uma outra ordem de questões ainda mais importantes.
Pois pode acontecer que sejam as fantasias da mãe que orientam a criança para o seu destino.
Mesmo nos casos em que entra em jogo um fator orgânico, a criança não tem que fazer face apenas a uma dificuldade inata, mas ainda à maneira como a mãe utiliza esse defeito num mundo fantasmático, que acaba por ser comum às duas.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Estruturas Clínicas na Clínica: A Histeria - Cíntia Palonsky



A bibliografia já existente sobre histeria poderia nos isentar do esforço de apresentar mais um texto, uma vez que não se trata nem de uma análise exaustiva de toda a bibliografia conhecida, nem de uma obra que apresente grande novidades teóricas. No entanto. a importância do quadro, a enorme dimensão de suas consequências e a freqüência com que aparece em nossos consultórios, justificam este trabalho. Nosso propósito estará cumprido se a maneira particular com que organizamos o material permitir entender melhor uma certa lógica da estrutura que apresentamos. 
Já na apresentação da estrutura histérica como tal, organizamos o material em função da questão do saber, quase como um jogo de pergunta e respostas, partindo do que consideramos os pontos de estrutura que permitem, facilitam e até talvez justifiquem o surgimento da problemática histérica. Essas perguntas, no lado da posição do sujeito diante da castração do Outro, orientarão na clínica a identificação da estrutura histérica. São perguntas que dizem respeito a: O que desejar? A quem desejar? O que é ser mulher? O que os homens desejam nas mulheres? O que as mulheres desejam nos homens? Muito mais do que uma simples curiosidade, estas perguntas básicas vão funcionar como eixo e guia da vida da histérica, que vai se dedicar a tentar achar uma resposta para elas. Porém, a maneira como o sujeito histérico vai procurar as respostas é bastante particular: se de um lado ele procura saber, do outro ele realmente não quer chegar a saber. E o que a histérica está procurando é alguma definição da feminilidade que vá além do falo. Grande parte, senão toda a problemática histérica, vai girar em tomo da impossibilidade de uma resposta que não o falo e a transformação dessa impossibilidade estrutural numa insatisfação. 
Deparar-se com a castração própria e a do Outro, com os limites da possibilidade simbólica através da inclusão do real, é o caminho difícil e angustiante que o sujeito histérico tem para percorrer numa análise, se o analista que está conduzindo a cura sabe do que se trata. Não sendo assim. resta a possibilidade de continuar na insatisfação e na reivindicação, e que a psicanálise e o psicanalista passem a engrossar a lista dos impotentes que nada conseguiram fazer com o seu sofrimento. 


Cíntia Palonsky - psicanalista argentina que, junto ao seu trabalho em Buenos Aires, vem desenvolvendo atividades em Belo Horizonte, coordenando seminários, seminários de estruturas clínicas, oficinas de clínica psicanalítica e outros cursos


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domingo, 20 de maio de 2018

Como alguém se torna paranóico? - De Schreber a nossos dias - Charles Melman


O que é a paranóia? Como é que se cura uma paranóia? Questões que Charles Melman aborda de uma forma eminentemente atual, tocando em pontos que se referem aos nossos dias - ao nosso cotidiano -  e no que torna nossas amizades tão difíceis. Por que o paranóico se sente sempre ameaçado em seu estatuto? O que é a psicose social?
Partindo de sua experiência, tanto no trabalho hospitalar como na sua clínica em consultório, Melman interroga nossas vulnerabilidades e nossa relação com o saber e a ciência, desde as novas tecnologias até os protocolos no campo da saúde. Do amor não correspondido ao sentimento de exclusão social, o que são as fronteiras que representam limites paranoiogênicos? O que supomos estar "para além do muro"? Qual a relação da mulher com a paranóia?
Ao abrir a discussão com o público, o psicanalista se depara com interrogações que o leitor poderá compartilhar com o auditório que seguiu o seminário. De maneira instigante, suave, mas não menos rigorosa, Melman nos conduz por assuntos de extrema complexidade, desde o cotidiano da clínica com a paranóia até o lugar do fundador da distinção entre povo e nação.


sábado, 19 de maio de 2018

O discurso melancólico: da fenomenologia à metapsicologia - Marie-Claude Lambotte



Não se pode, pois, dizer que o sujeito melancólico tenha a ver com a falta, como o neurótico, o que então teria permitido a mobilização de uma demanda. Muito ao contrário, o sujeito melancólico não demanda nada; ocupando o próprio lugar da falta, ele pode nunca experimentar angústia que sublinha a inadequação natural da resposta necessariamente falsa à demanda necessariamente enganosa. "O preenchimento total de um certo vazio a preservar que nada ter a ver com o conteúdo, nem positivo, nem negativo, da demanda, é aí que surge a perturbação onde se manifesta a angústia", escreve Lacan. Mas a posição excepcional do melancólico em uma semelhante topologia consiste precisamente em ocupar ele mesmo o vazio e em evitar, assim, até a distinção entre a demanda e a resposta. Permanece, todavia, que ao menor desvelamento do vazio, ao menor deslocamento de uma posição que exige muita energia para se manter, o sujeito pode, ao contrário, cair numa angústia paroxística que o conhecimento da inanidade das respostas que lhe são propostas reforça perigosamente. É assim que se poderiam, talvez, explicar as passagens ao ato suicidas dos melancólicos que se observam mais frequentemente quando de um período de aparente melhoria dos sintomas. Sem ilusão quanto a respostas tidas como podendo preencher o vazio, o sujeito se vê então como um duplo que, se ninguém vem reconhecê-lo e desejá-lo, não apresenta mais consistência que uma simples imagem de superfície; e passamos aqui, por exemplo, em certos doentes atingidos pela síndrome de Cotard que não se podem destacar de sua imagem especular a ponto de que neguem possuir o que não vêem: suas costas, seu caminhar... É, pois, atrás do espelho que se encontrariam "na realidade" as respostas ao vazio, aquelas mesmas que remetem a esta verdade mortal de que se aproximas de muito perto os sujeitos melancólicos.


terça-feira, 15 de maio de 2018

Efeitos terapêuticos rápidos em psicanálise - J.-.A Miller



Este livro é resultado da reunião da Seção Clínica do Instituto do Campo Freudiano de Barcelona, na qual os participantes apresentaram seis casos de curas rápidas que levaram à conversa e à troca. 
A respeito da possibilidade de que a psicanálise alcance efeitos terapêuticos rápidos, Jacques-Alain Miller diz: "Graças à pressão política que tivemos, temos nos visto forçados a fazer surgir da nossa prática toda uma dimensão que não tínhamos percebido até agora, a eficácia incrível da prática lacaniana. Sou a favor de explorar essa dimensão de nossa prática e reunir esses casos de curas breves, autênticas e completas à sua própria maneira".

quarta-feira, 9 de maio de 2018

PARA QUE SERVE UMA ANÁLISE? - Conversas com um psicanalista - Jean-Jacques Moscovitz e Philippe Grancher


Falar sobre psicanálise para o grande público, com toda a simplicidade embora sem perda do rigor conceitual, é um desejo partilhado por muitos psicanalistas desde Freud, que também nesse domínio foi um mestre - suas numerosas conferências de introdução à psicanálise são, nesse sentido, exemplares. 
Poucas vezes, contudo, o resultado de tal empreitada tem êxito, seja pela permanência de uma dose irredutível de hermetismo, correspondente à dificuldade de o analista operar a tradução da língua psicanalítica para o discurso corrente (não se deve esquecer que a psicanálise, como outros saberes, constitui uma verdadeira língua, falada pelos psicanalistas), seja pela redução do grau de complexidade inerente às descobertas psicanalíticas, as quais, à guisa de serem bem compreendidas, acabam sendo atingidas no que possuem de mais essencial. No primeiro caso, perde o público leitor a oportunidade de penetrar no universo discursivo freudiano, no segundo, os próprios analistas protestam ao verem na obra um desserviço à psicanálise. 
Em Para que serve uma análise? Jean-Jacques Moscovitz, psicanalista de formação lacaniana, atende a essa dupla expectativa: clareza e profundidade são os principais elementos desses diálogos travados com Philippe Grancher, ao longo dos quais emerge a riqueza da prática do psicanalista com suas certezas e inquietações no trabalho de escuta. Neles, o leitor leigo poderá elucidar problemas que hoje já fazem parte do cotidiano, assim como o psicanalista poderá depreender a solidez das concepções por detrás do coloquialismo das respostas. 

A CORRESPONDÊNCIA COMPLETA DE SIGMUND FREUD PARA WILHELM FLIESS 1887-1904



É provável que as cartas de Sigmund Freud a seu amigo mais íntimo, Wilhelm Fliess, constituam, isoladamente, o mais importante conjunto de documentos da história da psicanálise. Sem que jamais houvesse intenção de publicá-las, as cartas vão de 1887 a 1904, período que abarca o nascimento e desenvolvimento da psicanálise. Durante os dezessete anos da correspondência, Freud escreveu algumas de suas obras mais revolucionárias: Estudos sobre a Histeria, A Interpretação dos Sonhos, “A Etiologia da Histeria” e o famoso caso clínico de Dora. 
Aqui apresentados, sem nenhum corte, acham-se 133 documentos nunca trazidos a público anteriormente, e mais 139 antes publicados apenas em parte. A tradução se baseia num texto alemão novo e corrigido e as notas discretas auxiliam o leitor nas alusões difíceis, mas permitem uma interpretação individual do material apresentado. É raro o criador de um campo totalmente novo do conhecimento humano revelar, tão abertamente e com tantos detalhes, os processos de pensamento que conduziram a suas descobertas. Nenhum dos escritos posteriores tem o imediatismo e o impacto dessas primeiras cartas, nem tampouco revela tão dramaticamente os pensamentos mais profundos de Freud em pleno ato da criação. Aqui vemos Freud esboçar e aperfeiçoar suas teorias, sentir a rejeição dos colegas de ciência e vivenciar seu isolamento profissional. À medida que a amizade com Fliess cresce e se aprofunda, os dois homens se encontram periodicamente para trocar idéias e apoiar-se mutuamente em seus esforços. Freud se volta cada vez mais para o amigo enquanto “platéia de uma só pessoa”, mas, no final, é desdenhado também por Fliess.
Entremeados nas atividades intelectuais de Freud acham-se trechos referentes aos acontecimentos do cotidiano — as artimanhas de seus filhos, suas férias de longas caminhadas, suas preocupações financeiras e seus esforços para deixar de fumar. Nenhuma biografia conseguiria retratar tão integralmente o homem multifacetado que ganha vida no texto dessas cartas.