quarta-feira, 25 de abril de 2018

O manto de Noé: ensaio sobre a paternidade - Philippe Julien


O que é um pai? Esta pergunta que Freud se fez em determinada ocasião, ele próprio não pôde responder. E por que não? Porque simplesmente não há uma resposta que satisfaça a esta pergunta. Esta pergunta deverá ser construída e atravessada na análise de cada sujeito. 
Este livro de Philippe Julien articula de maneira sensível uma questão sobre o pai, a partir de um fragmento de uma passagem bíblica que é “O manto de Noé”. 
Há o Um, diz Lacan. Um Pai. É por causa da nomeação que se faz nó. Um nó que é composto por não menos que três registros: real, simbólico e imaginário. Lembremos também que sao três os fìlhos de Noé. A sensibilidade do psicanalista ao fazer este “ensaio sobre a paternidade” nos convida a pensar a partir de “um triplo declínio”, “uma tríplice dimensão” e “um triplo discurso”, para amarrar como bem faz um nó, com "uma alteridade irredutível”. “Este é o paradoxo para se analisar. Tem, a paternidade. sua consistência de imagem forte ou miserável que apresenta? Ou, ao contrário, de apelo ao nome do pai? Pai! Um simples nome de algumas letras, colocado na fonte de um inesgotável.”

Carlos Eduardo Leal

Interpretação: as respostas do analista - Colette Soler



O texto a seguir é a transcrição de um seminário realizado na EBP-SP no ano de 1994. Nele, Colette Soler nos dá referências e orientações muito precisas e preciosas sobre a questão da interpretação em psicanálise. Participam também desse debate os psicanalistas da Escola: Angelina Harari, Dominique Fingermann, Jorge Forbes, Manoel Barros da Mota, Sonia Alberti, Sérgio Laia, entre outros.

“Sem dúvida, podemos falar de interpretações, no plural, considerá-las uma por uma. E sobre as interpretações podemos fazer muitas perguntas, uma verdadeira clínica das interpretações: em que momento ocorrerram? Em que oportunidade? Qual o seu estilo de produção? Rápidas como um lapso ou laboriosas como uma construção? Exatas ou inexatas? Boa ou ruim?
Podemos invocar também as interpretações involuntárias do analista, na medida em que tudo nele, algumas vezes interpreta, até mesmo seu humor: qual é sua expressão dele? Que cara ele tem? E assim por diante.
Podemos fazer uma clínica bastante detalhada e até divertida das interpretações, mas é preciso conseguir estabelecer o que faz com que todas elas sejam interpretações, qual dizer as torna interpretações?
As intervenções interpretativas podem se dar pela pontuação, pelo corte, pela alusão, pelo equívoco, ou ainda pela citação e pelo enigma. O que todos eles têm em comum? Eles dizem nada. São um dizer nada que faz intrusão no discurso analisando e que nele provoca efeitos não sendo inoperante, mas não dizendo nada e, aliás, é por isso que o analisando o percebe. É preciso situar melhor esse dizer nada.”


Extraído de Opção Lacaniana, nº 13, 1995, p. 20-38


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Escritos Clínicos: transferência, interpretação, psicose - Colette Soler



Para Lacan, a transferência não é repetição. Esta precisão é fundamental . Há em suma uma dupla vertente da repetição como uma dupla vertente da transferência. A dupla vertente da repetição ele a isolou no Seminário XI . Para que possam os dizer que o m esmo se repete, é preciso que uma arquitetura significante permita delimitá-lo; o "autômaton" leva em conta a estrutura , a rede de significantes sem os quais não haveria caminho traçado para o sujeito. O significante cava as vias pelas quais ele pode retornar, passar de novo. Há para um determinado sujeito, se assim se pode dizer, painéis indicadores que não são os mesmos para um outro sujeito. H á , portanto, uma via significante na repetição, porém a verdadeira repetição lacaniana, que ele isola do emaranhamento freudiano, é a que ele chama de "tiquê", o que repete sem pre a falha . Por isso é preciso dizer que o que se repete é algo sempre novo. Ver na repetição a verdadeira variedade, não é um paradoxo, não é um jogo de palavras. O que se repete para o sujeito, e que segue as vias significantes do discurso no qual ele está preso, é sempre o mesmo obstáculo que faz com que algo se imponha como traumatismo, que algo se encontre, ao acaso, que não está programado e por isso retorna, com o hi ato, que condiciona a falta da relação sexual . Hiato entre tudo o que pode-se dizer e algo que não se diz, entre o significante e o real , que se apresenta na origem sob a forma do traumatismo sexual.
A transferência é outra coisa. Por quê Lacan diz que a transferência não é a repetição?

Artigos clínicos - Colette Soler, 1991, Editora Fator

Sumário

A transferência e a cura 

As modalidades da transferência
Standards e não standards
Transferência e interpretação na neurose
O acting out na cura
A angústia na cura
Os fins próprios do ato analítico

A interpretação

As regras da interpretação
Lacan na Inglaterra
Identificação e interpretação
Sobre a interpretação
Uma dificuldade da psicanálise de criança

A psicose 

A psicose: problemática
Abordagens do Nome-do-Pai
Marlene
Uma estabilização sob transferência
Fenômenos e estrutura da erotomania



quinta-feira, 19 de abril de 2018

Seminário 9 - A Identificação - Jacques Lacan



Nesse seminário Lacan se dedica à questão da identificação, distinguindo 3 tipos de identificações, inspiradas em Freud: identificação por “incorporação”, por regressão (a um traço unário) e identificação imaginária, histérica.
O conjunto do problema da identificação será colocado a partir da identificação pelo traço unário, definido como aquilo que todo significante tem em comum, a saber, o fato de ser antes de tudo constituído como traço e de ter esse traço como suporte. 
Ele parte da noção de traço único, apresentada por Freud na teoria da identificação, como identificação parcial a um traço do objeto, transformando o único freudiano em unário, termo através do qual introduz sua concepção do um, fundamento da diferença que demarca o conceito de identificação pela via simbólica, afastando-se da idéia de unificação que perpassa as identificações imaginárias. 
O traço unário surge no lugar do apagamento do objeto, sendo antes um traço distintivo, de pura diferença, que marca a divisão do sujeito pela própria linguagem, onde algo, que diz respeito ao objeto, se perde. Por isso, como um nome, marca um a um, na sua singularidade. O nome próprio seria um exemplo de traço unário, na medida em que se situa como marca distintiva e não se traduz. 
Lacan afirma ainda que na fundação do UM, do Há Um que tal traço constitui, somente pode ser pensada em sua ‘unicidade’ enquanto esse traço é, como todo significante, sempre primeiro. Ele é um traço distintivo, único, que cria a função do UM: existe o Um – il y a de l’Un -, o Um da unicidade que virá constituir o sujeito em sua relação com o Outro. Esse Um se fará representar por um significante extraído como um ‘traço unário’ desse Outro. Além disso, ele carrega em si o suposto encontro com o objeto, pois surge do encontro com esse objeto por ser algo do objeto que retém na sua unicidade.

BAIXE AS VERSÕES EM:

(Traduzido pelo Centro de Estudos Freudianos do Recife a partir da versão da Associação Freudiana Internacional)

(Versão Crítica por Ricardo Rodriguez Pontes)

(Staferla)


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade - Jacques Lacan


"Da Psicose Paranóica", que já foi considerada como a última grande tese da psiquiatria contemporânea, constitui, na verdade, já a primeira incursão de Jacques Lacan no campo propriamente psicanalítico. Nela, é precisamente toda a tradição psiquiátrica que é criticada, à luz do debate emergente entre as correntes psiquiátricas organogenéticas e psicogenéticas, a partir da perspectiva freudiana. É a partir dessa perspectiva que Lacan dará relevo, na análise de um caso de paranóia, o caso Aimée, ao mecanismo de autopunição, cuja inteligibilidade só é destacável a partir do conceito freudiano de inconsciente. 
"Da Psicose Paranóica" obteve uma grande acolhida por parte dos surrealistas, os primeiros a atribuírem na França, importância para a elaboração freudiana da psicanálise. Após sua publicação, Lacan foi convidado a escrever para a revista surrealista Minotaure, sendo que dois destes ensaios são aqui publicados sob a rubrica de "Primeiros Escritos sobre a Paranóia". Após a leitura de "Da Psicose paranóica", Salvador Dali criaria seu método paranóico-critico, o qual traria novo fôlego para o movimento surrealista.

M.A.C.J.


terça-feira, 17 de abril de 2018

Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência - Éric Laurent



Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência*

Éric Laurent

Escolhi este título para questionar diante de vocês o uso que podemos fazer da transferência, de acordo com as indicações que Lacan nos dá, naquilo que Jacques-Alain Miller chamou de seu último ensino, que começa com o seminário Mais, ainda (1972-1973)[1]. Mantive o termo “loucura” pois ele recebe um novo acento a partir do texto que comporta o dizer provocativo de que “todo o mundo é louco, isto é, delirante”[2], texto que data desse período. Escolhi também o termo disrupção, pois é o título sob o qual mantivemos esse ano na ECF um ensino, através de Nouria Gründler, Dominique Laurent e François Ansermet, e também porque é o termo escolhido por J.-A. Miller como um sinônimo da efração que constitui o gozo na homeostase do corpo, fundamento da repetição do Um: “nos casos aos quais temos acesso pela análise, seu modo de entrada [do gozo] é sempre a efração, isto é, não a dedução, a intenção ou a evolução, mas a ruptura, a disrupção em relação a uma ordem preliminar feita da rotina do discurso pelo qual mantêm as significações, ou da rotina que imaginamos do corpo animal”[3]. A disrupção tem aí um duplo sentido. É ao mesmo tempo a efração primeira e também suas réplicas, que ocasionalmente perturbam as diferentes homeostases ou estabilizações que o sujeito pôde estabelecer como defesas contra a efração súbita de um gozo desconhecido a ele.
Mantive também o termo “loucura”. Eu poderia ter usado o termo delírio para englobar as psicoses ordinárias, as outras, e seu modo de tratamento, uma vez que em seu seminário de 1976, Lacan inclui a psicanálise no delírio. “A psicanálise não é uma ciência [...] É um delírio – um delírio que espera-se que contenha uma ciência”[4]. A generalização da abordagem do sujeito pela foraclusão generalizada é paga a um preço que J-A Miller destacou em sua apresentação do último Lacan. Esse preço é o quase desaparecimento do uso do termo transferência nos textos de Lacan. Notemos já que a abordagem da transferência nas psicoses, antes extraordinárias, depois ordinárias, não deixou de nos colocar questões, uma vez que o estatuto da relação com o Outro foi especialmente colocado na berlinda desde a queda final da “Questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, que “introduz... a concepção a ser formada do manejo, nesse tratamento, da transferência”[5], para não dizer nada sobre ela, uma vez que isso seria ir “para-além de Freud”[6].
O fim da “Questão preliminar” pára no ponto onde o Deus-pai é apagado diante do Deus parceiro de gozo, “depois de declarada a falência do Nome-do-Pai - isto é, do significante que, no Outro como lugar do significante, é o significante do Outro como lugar da lei”[7]. Lacan não diz falência do Outro, mas falência do Nome-do-Pai. Acontece então que, segundo a expressão de Schreber, antecipando George Bataille, “Deus é uma p...”[8], em outras palavras, um parceiro de gozo. Essa revelação é uma redução que é a chave do manejo da transferência com um parceiro de gozo sem a garantia do Nome-do-Pai. Não estaria ela situada como preliminar à grande redução final do último ensino de Lacan? E já a primeira redução introduz múltiplas dificuldades. São essas dificuldades que abordamos em artigos recentes, reunidos no excelente último volume da revista El psicoanalisis consagrado a “O que não se sabe sobre a transferência”, por Miquel Bassols e Vicent Palomera.
Vicente Palomera situa muito bem a questão da transferência nas psicoses. "Enquanto o trabalho da transferência pressupõe um laço libidinal com um Outro na posição de objeto, no trabalho do delírio é o sujeito como tal que toma a seu cargo, solitariamente, não o retorno do recalcado (como dizemos na neurose), mas os retornos no real que o assolam. Ao passo que não há auto-análise do neurótico, o delírio é um tipo de auto-elaboração. O problema é de saber se esse trabalho pode se inserir no discurso analítico e, se sim, como? Pode o ato analítico incidir sobre esse auto-tratamento do real como no trabalho de transferência?” [9]
Miquel Bassols, por sua vez, desde o Congresso da NLS em Dublin, em julho de 2016, sugeriu que o principal efeito da introdução da "psicose ordinária" - essa categoria instável que desafiava a categorização e parecia sujeita ao paradoxo de Russel – se ordenava apenas pelo encontro com a contingência da transferência. Ele concluiu seu texto deste modo: "As psicoses ordinárias são clinicamente ordenadas apenas se os fenômenos são precipitados, organizados de acordo com a lógica da transferência. É somente assim que as psicoses ordinárias se revelam ordenadas sob transferência "[10]. Essa perspectiva voltaria a se servir da psicose ordinária para reexaminar a questão da transferência nas psicoses em geral. Aqui também, a passagem do regime do patriarcado ao parceiro de gozo [11] abre, em suma, um duplo caminho. Por um lado, o manejo da transferência nas psicoses nos diz algo sobre a abordagem da transferência no último ensino. Por outro lado, o último ensino nos permite ir mais longe e nos livrar de certos embaraços que nos prenderam em nosso ato.

Da transferência sem Nome-do-Pai à transferência sem o Outro.

Em seu último ensino, Lacan vai resolutamente para além de Freud, mas sem, no entanto, levantar o véu diretamente sobre o manejo da transferência. Ele chega mesmo a rebaixá-la à antiga noção de sugestão: "A psicanálise opera – uma vez que de tempos em tempos ela opera – por um efeito de sugestão? Que o efeito de sugestão se mantenha, supõe-se que a linguagem mantém o que se chama o homem. Não é à toa que uma vez expressei certa preferência por um livro de Bentham que fala da utilidade da ficção."[12]. E J.-A. Miller dá a essa aproximação todo o seu peso: "Pensar que a interpretação é um efeito de sugestão é, eu disse, enorme. É enorme porque deixa de lado a transferência. Além disso, a transferência é, de fato, o que está ausente nesse ultimíssimo ensino, pelo menos nos Seminários do Sinthome e do L’Une-bévue ". Lacan, no entanto, nos deixa, como nota J.-A. Miller, indicações para "reinventar a psicanálise" com ele, especialmente fazendo essa ligação entre sugestão e ficção. Deve surgir disso que a perspectiva do Sinthome é aquela dos Uns separados e não articulados. "Há aqui um radical: a cada um seu sinthoma, [...] que convida a apreender cada um como um Um absoluto, isto é, separado[...]. A transferência é aquela que é aplainada pela perspectiva do ultimíssimo ensino de Lacan. É uma perspectiva que toma a prática da análise na direção contrária."[13]
Mas essa direção contrária, não seria ela conveniente, especialmente ao nosso tecido da prática psicanalítica do lado das loucuras, onde não podemos nos sustentar pelo Nome-do-Pai, na época do sinthome e do falasser? Essa maneira de deixar a transferência de lado, uma vez que o sujeito não é mais abordado a partir do Outro, não poderia ela nos libertar, já que precisamente "Lacan passa por cima da transferência, porque [...] a transferência supõe um Outro bem estabelecido e bem assentado. Há transferência quando já se supôs o saber que significaria alguma coisa "[14]? Ora, esse Outro bem assentado é aquele que desvanece nesse campo da clínica que nos interessa. Da mesma forma, o querer dizer algo está em questão: generalização, radicalização e direção contrária! Estas são as perspectivas a partir das quais eu gostaria de abordar o nosso tema.

Nos Seminários 23 e 24, não há quase nada sobre a transferência, exceto uma passagem precisa do Seminário de 10 de maio de 1977, a qual gostaria de comentar com as indicações do último curso de J.-A. Miller como um todo. De maneira característica, nessa sessão do seminário, Lacan parte daquilo que não há. Do que é marcado pelo negativo, a transferência negativa, para chegar à transferência positiva, que não tem existência definida. Ele evoca o recurso ao "isso se sente" [ça s’y sent], como no Seminário 23, para designar um real que escapa a poder ser escrito como existência. Podemos simplesmente nomeá-lo. O raciocínio deve ser seguido passo a passo. Nós nomeamos alguma coisa negativamente, para assinalar que ela não existe, porque sentimos que há uma existência da qual não conseguimos captar a consistência lógica.

"[...] eu tenho que escorregar - é assim que se faz - entre a transferência que chamamos, não sei porque, negativa, e ... não sabemos sempre o que é que a transferência positiva. Tentei defini-la sob o nome do ‘sujeito suposto saber’" [15].

É esse nível da hipótese com a qual Lacan quer romper. O efeito da hipótese, da ficção, é transferir para o analista o lugar da causa da produção de saber em análise. A transferência é assim reduzida à sua lógica atributiva. O analista não deve esquecer que não é o seu ser que é a mola da operação analítica. Lacan descobre aqui sua veia combativa contra aqueles psicanalistas da IPA, que sustentavam que o analista opera com o que ele é: "O que importa ... não é tanto o que o analista diz ou faz mas o que ele é." Conduzindo a uma proposição louca: "Na França, o doutrinário do ser ... mostrou-se direto nessa solução: o ser do psicanalista é inato" [16].

Lacan varreu essa espessura do ser do psicanalista ao enfatizar, em seu ensino clássico, que o analista ocupa o lugar de uma suposição ou de uma atribuição.

"Quem é suposto saber? É o analista. É uma atribuição, como já indicado pela palavra suposto. Uma atribuição é apenas uma palavra. Há um sujeito, algo que está acima, que é suposto saber. O saber é, portanto, seu atributo. Há apenas um problema: é impossível dar o atributo do conhecimento a quem quer que seja. "[17]

A oposição entre juízo de atribuição e juízo de existência em Freud é uma oposição na qual Lacan se baseou de várias maneiras no curso de seu ensino. Aqui, a referência ao juízo de atribuição vem enfatizar acima de tudo que não se trata de um juízo de existência.

"Aquele que sabe, na análise, é o analisando. O que ele desenrola é o que ele sabe, exceto que é um outro (mas existe um outro?) que segue o que ele tem a dizer, para saber o que ele sabe. Esta noção de Outro, eu a marquei num certo grafo com uma barra que o rompe. "[18].

A notação do analista como aquele que segue o que o analisando tem a dizer, é consonante com a descrição da posição do analista como testemunha ou secretário da elaboração que conduz o sujeito psicótico, após a falência do nome do Pai. Mas além disso, devemos entender a ruptura do analista com sua ancoragem na suposição. Ele não está no lugar do sujeito suposto saber, ele está no lugar daquele que segue. Há aí um equívoco entre o "eu sou", a primeira pessoa do indicativo do verbo ser, e o "ele segue", terceira pessoa do indicativo do verbo seguir.

Qual é então o status do Outro rompido que se deduz? Precisamos já sublinhar a originalidade do termo rompido, que vem no lugar de barrado, que Lacan usava até então. Por esse deslocamento, ele enfatiza o fato de que se trata de uma questão de existência, do que pode ser afirmado ou negado a partir desse juízo. "Mas romper é negar? A análise propriamente dita afirma que o Outro nada mais é que essa duplicidade. “Há o Um, mas não há nenhum Outro"[19]. A formulação é radical e sutil "nenhum Outro" [rien d’Autre = “nada mais”].

A barra fazia parte do ensino clássico, a ruptura acontece agora entre o Ser e o que existe. Lacan continua enfatizando que a barra perdida recai sobre o Um de uma maneira estranha. É preciso para isso separar o Um e o diálogo. O Um pode falar sozinho. "O Um, eu disse, dialoga sozinho, uma vez que recebe sua própria mensagem de forma invertida. É ele quem sabe, e não o suposto saber "[20]. Aqui encontramos a auto-elaboração que Vicente Palomera evocou no coração do trabalho do delírio, mas Lacan argumenta que essa auto-elaboração está fundada desde sempre na fórmula geral da comunicação. Cada um recebe sua mensagem de forma invertida. Nossa formulação fundamental da interpretação "Eu não faço você dizer isso ..." é assim generalizada. Não há mais necessidade da ficção do eu no lugar de supostamente extrair o saber do lugar do analisando. O analisando sabe, e é suficiente que ele se endereçe ao Outro que não existe para que se produza o efeito de retorno.

Mas isso só pode operar se dermos a esse saber a sua dimensão de singularidade radical. Não podemos saber do que isso se trata antes que esse saber seja recebido em sua forma invertida. Essa lógica acompanha a suspensão radical de qualquer relação de comunidade entre o analisando e o analista. É uma consequência da suspensão do “todos” que subsistia sob a suposição, o fantasma de um traço comum entre o analisando e o analista. Victoria Horne-Reinoso, em um texto publicado na Revista da ECF, ressaltou a importância do pré-requisito de "todas as mulheres são loucas... mas não totalmente" para passar à separação dos Uns que sustentam a afirmação de que "todo mundo delira" [21].

"Propus também isso, que se enuncia do universal, mas para negá-lo - eu disse que não existe “todos”. É assim que as mulheres são mais homem do que o homem. Elas não são não-todas, eu disse. Os “todos” não têm traços comuns. No entanto, eles têm esse, que é o único traço comum - o traço que eu disse unário. Ele se apoia no Um. Existe o Um. Eu repeti isso agora para dizer que existe o Um, e nada mais [rien d’Autre]."[22]

Transferência e Sentimento: o une- bévue e o “fazer verdade”

Lacan conclui sua reformulação da transferência em um ponto-chave. A articulação entre a "transferência negativa" e o ódio a que ele tinha se referido até então como paixão do ser, como a paixão que visa por excelência o ser do Outro. O Outro não existe, mas a paixão odiosa existe. Justamente porque não se detém nos atributos do Outro, visa o real. Ela visa algo mais profundo, que é da ordem do ódio ao próximo. Em nosso último Fórum sobre O Estrangeiro em Roma, recordei a função do ódio, enfatizada por J.-A. Miller: "No ódio ao Outro, é certo de que há algo além da agressividade. Há uma constante dessa agressividade que merece o nome de ódio e que visa o real no Outro. O que faz com que esse Outro seja Outro, para que possamos odiá-lo, odiá-lo em seu ser? Bem, é o ódio ao gozo do Outro. Essa é até mesmo a forma mais geral que pode ser dada a esse racismo moderno tal como o verificamos. É o ódio ao modo particular com o qual o Outro goza"[23]. O ódio está do lado do real, e mesmo que o Outro não exista, o ódio vem primeiro em relação ao amor. É um ponto de rejeição, de expulsão do Outro que remonta ao Ausstossung, à expulsão primordial que situa o sujeito frente ao Outro. É isso o que Lacan encontrou lendo a Verneinung de Freud desde a fase clássica de seu ensino. "Porque é assim que se deve compreender[...] a Ausstossung aus dem Ich, a expulsão para fora do sujeito. É esta última que constitui o real, na medida em que ele é o domínio do que subsiste fora da simbolização"[24]. É sobre esse pano de fundo que devemos ler a introdução feita por Lacan, em contraponto à separação dos Uns, do lugar do sentimento que inclui em sua nova definição o ódio e o amor. "Há o Um, e isso significa que há, ainda assim, o sentimento, esse sentimento que eu chamei, de acordo com as unaridades [unarités], o apoio disso que é preciso que eu reconheça, o ódio, como um ódio parente do amor [...]"[25]. Essa hainamoração é a consequência da separação do gozo dos outros Uns. Constatei em Roma o fato de que "Conhecer isso, saber das aporias do amor e do gozo na vizinhança do próximo não nos condena nem ao cinismo nem à imobilidade, ou à constatação da presença irredutível do ódio ou do mal. "[26] Aqui também, saber que há a hainamoração não condena ao imobilismo por medo de provocar o ódio.
Lacan dá lugar, a partir do real do ódio, a uma outra dimensão. Ela se impõe a partir do tropeço [achoppement]. Pois o “falar sozinho” do Um não está isento dessa dimensão, pelo contrário. O traço do Unário provoca o traço do equívoco [l’Une bévue]. “Não há nada mais difícil de captar do que esse traço do une-bévue, que traduzi por l’Unbewust, que significa inconsciente em alemão. Mas traduzido por une-bévue, isso quer dizer uma outra coisa – um obstáculo, um tropeço, um deslizamento de palavra a palavra”[27]. Vamos dar uma olhada nessa nova versão de tropeço isolada por J.-A. Miller: “Em seu Seminário dos Quatro conceitos [Lacan] define o inconsciente pelo tropeço, isto é, pelo une-bévue. Mas em seu Seminário 24, isso significa outra coisa. Lá, o tropeço ou o deslizamento de palavra em palavra, como fenômeno, se situa em um tempo anterior àquele onde pode aparecer o inconsciente. O inconsciente aparece no une-bévue apenas na medida em que acrescentamos uma finalidade significante, na medida em que acrescentamos uma significação”[28].
E é aí que se insere uma nova versão da transferência positiva. É uma transformação pelo acréscimo de sentimento, uma transformação pelo acréscimo de significação que permite um novo uso do parceiro de gozo para superar os obstáculos do une-bévue do sujeito confrontado pela lalíngua e sua instabilidade, seus deslizes permanentes. "Lacan dá um nome a essa transformação por acréscimo de significação. Ele se refere a isso como um fazer-verdadeiro [faire vrai]: "A psicanálise é o que faz verdadeiro... O inconsciente vem depois, porque acrescentamos sentido: Nós adicionamos um toque de sentido, mas ele permanece um semblante" [29].
O semblante permanece então sujeito a um regime distinto da Verdade. O semblante, submetido ao "fazer verdadeiro", permite ao sujeito restaurar uma homeostase, apesar dos tropeços, apesar da instabilidade fundamental da lalíngua, apesar da homofonia primordial[30]. É necessário então o apoio do analista, para além da função da testemunha, do suporte, do secretário. Ele é aquele que faz verdadeiro o tropeço. "É claro que o analisando produz o analista, disso não há dúvida. É por isso que me questiono sobre esse estatuto do analista, a quem deixo o seu lugar de fazer verdadeiro, de semblante[...] "[31].
O que foi apresentado, no tempo da "Questão Preliminar", como o horizonte de um tratamento possível da psicose, uma estabilização da metáfora delirante graças a uma ficção não-edipiana, é agora generalizado na forma de uma homeostase regida pelo princípio do prazer como defesa contra a disrupção do gozo. Mas Lacan introduz aí uma nova dimensão ao considerar que a homeostase do princípio do prazer é sinônimo de repouso e sono. J.-A. Miller deu uma transcrição dessa versão da psicanálise que constata o Outro rompido e restabelece um lugar do analista como semblante, entendido no sentido de um fazer novo: o fazer verdadeiro. Esse fazer verdadeiro se opõe ao fazer ser contemporâneo do Outro, que inclui o significante da Lei [32]. "Vemos então em que consistiria a psicanálise. Ela consistiria em reconduzir ao princípio do prazer através do efeito de sugestão. [...] A sugestão é o efeito natural do significante. É assim que entendo porque Lacan pode dizer que há contaminação do discurso pelo sono[...]. O que é que Lacan desenha como o uso do que chamamos, chamávamos, de interpretação? É instrutivo ver que ele então traz de volta o princípio do prazer, e que reconhece para ele um lugar no nível do Um"[33]. Ao final do percurso, a sugestão é reconduzida ao seu fundamento primeiro: o impacto do significante no corpo, permitindo um certo tratamento da disrupção do gozo, seu temperamento em direção a uma homeostase graças à auto-elaboração de uma ficção não-padrão. Essa é a importância da definição que Lacan dá do fim da análise nas conferências americanas de 1975. "Uma análise não deve ser levada longe demais. Quando o analisando pensa que está feliz de viver, basta "[34]. É preciso entender que essa felicidade de viver, essa satisfação, é uma satisfação do Um. Ela se situa ao contrário da satisfação articulada ao Outro, aquilo que Lacan indicou em "Função e campo ..." onde " a questão do término da análise é a do momento em que a satisfação do sujeito encontra meios de se realizar na satisfação de cada um, isto é, de todos aqueles com quem ela se associa numa obra humana. [35]". J.-A. Miller comentando essa passagem em seu último curso acha isso "desconcertante" [perplexifiant]. "Não percebemos exatamente que aqueles que se associam a uma obra humana, seja ela uma escola ou um partido, brilham pela compatibilidade de sua satisfação, percebemos ao invés disso que eles se arrancam os cabelos" [36].
No entanto, Lacan abre lugar, em contraponto à ficção auto-reguladora e à satisfação do Um, para uma nova abordagem da interpretação. Aquela que funciona na direção contrária do uso comum da ficção, como um despertar.

A interpretação como jaculação

No Seminário 22,  lição de 11 de janeiro de 1975, Lacan questiona se a nova formulação dá o efeito de sentido que a interpretação dá, a partir do momento em que as três consistências R, S, I são homogêneas. E ele chega a separar a fala e a interpretação, como separa a interpretação do papel da transferência. A interpretação presentifica um mais-além da palavra: "A interpretação analítica [..] vai muito além da fala. A palavra é um objeto de elaboração para o analisando, mas sob os efeitos do que diz o analista - pois ele diz. Formular que a transferência tenha aí um papel, não é nada, não esclare nada. Tratar-se-ia de explicar como a interpretação funciona, e que ela não implica forçosamente uma enunciação"[37]. Para explicar a eficácia da interpretação, ele vem colocar a existência do efeito de sentido real. "O efeito de sentido a se exigir do discurso analítico não é imaginário. Também não é mais simbólico. É preciso que seja real. O que me ocupa nesse ano é pensar qual pode ser o Real de um efeito de sentido"[38]. Esta interpretação não é da ordem de uma tradução por acréscimo de um S2 em relação a um S1. É a interpretação que não visa a concatenação ou a produção de uma cadeia significante. Ela registra o novo objetivo de amarração do nó em torno do acontecimento de corpo e da inscrição que pode ser notada (a) em um uso renovado. "O que estamos colocando com o nó borromeano vai contra a imagem da concatenação. O discurso em questão não forma cadeia [...]. Portanto, surge a questão de saber se o efeito de sentido em seu real está no uso das palavras ou na sua jaculação[...]. Acreditávamos que era nas palavras. Ao passo que, se nos dermos ao trabalho de isolar a categoria do significante, podemos ver que a jaculação guarda um significado isolável"[39].
A escolha da jaculação em oposição à palavra nos faz questionar. É preciso notar que em francês o nome jaculação e o adjetivo jaculatório provém de discursos distintos, o humanista e o religioso. [40]
O novo uso que Lacan quer dar à jaculação não é nem humanista nem religioso. Ele vem de seu uso lacaniano próprio. Ele já qualificara o texto poético de “jaculação”, por Pindare[41]. Pode-se falar também de jaculações místicas, a propósito de Angélus Silesius [42]. Ou ainda faz-se do Poordjeli de Serge Leclaire “uma jaculação secreta, uma fórmula jubilatória, uma onomatopéia”[43], assimcomo faz-se do “Fort-Da” uma jaculação. Mas é no Seminário sobre o objeto da psicanálise que ele dá o sentido mais geral desta jaculação, retomando as primeiras frases do primeiro seminário sobre a ação do mestre zen: "[...] todos sabem que o exercício Zen tem alguma relação, mesmo que não saibamos bem o que isso quer dizer, com a realização subjetiva de um vazio. E não estamos forçando nada ao admitir que para quem quer que seja, o contemplador médio, verá essa figura, se dirá que há algo como uma espécie de momento culminante, que deve ter relação com o vazio mental que se trata de obter e que seria obtido nesse momento singular, brusquidão que sucede a espera que se realiza às vezes por um palavra, uma frase, uma jaculação, até mesmo uma grosseria, um gesto ofensivo [pied de nez] um chute na bunda. É bem certo que essas espécies de palhaçada não têm sentido a não ser em relação a uma longa preparação subjetiva[...]”[44]. Notemos aqui, de maneira crucial, a ligação da produção do vazio subjetivo e da jaculação.
Portanto, a jaculação inclui o valor do ardente, ou do entusiasmo, mas para designar um uso do significante tal como ele desperta no sentido de produzir o vazio da significação. O que é chamado de jaculação no Seminário 22, como designando um efeito de sentido real, torna-se no Seminário 24 o significante novo. "Quando ele pede um significante novo, se trata de fato de um significante que poderia ter outro uso, ... um significante que seria novo, e não simplesmente porque assim haveria um significante a mais, mas porque, no lugar de ser contaminado pelo sono, esse novo significante provocaria um despertar. "[45].
Esse despertar está ligado à produção de um efeito de sentido real como produção de um vazio subjetivo. Isso é consoante com o foco do último ensino sobre o furo e não sobre a cadeia.
Assim, em seu último ensino, Lacan desenha, literalmente, com o nó, uma modalidade de tratamento da disrupção do gozo pelo une-bévue. Para isso ele reformula os termos clássicos dos instrumentos da operação psicanalítica: o inconsciente, a transferência, a interpretação, para propor novamente: o falasser, o ato, a jaculação, sujeitos à lógica do Há-Um. A jaculação é central em todas as consequências que J.-A Miller nos fez ouvir. Esse conjunto de ocasiões define o enquadre teórico de uma prática da clínica das loucuras sob transferência e do tratamento da disrupção do gozo que se produz, particularmente em consonância com a desordem no Outro que supõe a abordagem desse campo. A leitura justa dos trabalhos do nosso Congresso supõe esse horizonte do último ensino, embora Lacan sempre ganhe mais ao ser lido "em bloco"[46]. Precisamos de um bloco orientado, pois, de outro modo, permaneceremos “ocidentados” [occidentés] na última curva de Lacan, tão propícia à prática contemporânea da psicanálise.

NOTAS

[*] Intervenção no 11º congresso da AMP em Barcelona “As psicoses ordinárias e as outras, sob transferência”, Abril, 2018.
[2] Lacan J., « Lacan pour Vincennes ! » Ornicar ? 17-18,1979, Paris, Navarin, p. 278.
[3] Miller J.-A., « L’orientation lacanienne, L’Être et l’Un », Enseignement prononcé dans le cadre du département de psychanalyse de l’université Paris VIII, leçon du 23 mars
2011, inédit.
[4] Lacan J., « Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre», Texte établi par J.-A. Miller, leçon du 11 janvier 1977, Ornicar ? n° 14, Paris, Navarin,
p.8.
[5] Lacan J., « Question préliminaire à tout traitement possible de la psychose », Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 583.
[6] Ibid.
[7] Ibid.
[8] Ibid.
[9] Palomera V., « Transferencia y posición del analista en las psicosis. Entrevista », El psicoanalisis n°32, Barcelona, Escuela Lacaniana de Psicoanalisis, avril 2018, p. 76.
[10] B a s s o l s M . , « L a s p s i c o s i s o r d e n a d a s b a j o transferencia », El psicoanalisis n°32, Barcelona, Escuela Lacaniana de Psicoanalisis, avril 2018, p. 42.
[11] Laurent D., L’ordinaire de la jouissance, fondement de la nouvelle clinique du délire», La Cause du désir, n°98, Paris, Navarin, 2018, p.27.
[12] Lacan J., Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre», Texte établi par J.-A. Miller, leçon du 17 mai 1977, Ornicar ?n°17-18, Paris, Navarin, 1979, p. 20.
[13] Miller J.-A., « L’orientation lacanienne, Le tout dernier Lacan » enseignement prononcé dans le cadre du département de psychanalyse de l’université Paris VIII, leçon du 14 mars 2007, inédit.
[14] Ibid.
[15] Lacan J., Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait del’une bévue s’aile à mourre », Texte établi par J.-A. Miller, leçon du 10 mai 1977, Ornicar ?, n°17-18, Paris, Navarin,
1979, p. 17.
[16] Lacan J., « La Direction de la cure et les principes de son pouvoir », Écrits, Paris, Seuil 1966, p. 590. Et la note [22] p. 645).
[17] Lacan J., Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre», Texte établi par J.-A. Miller, leçon du 10 mai 1977, Ornicar ?, n°17-18, Paris, Navarin,
1979, p. 18.
[18] Ibid.
[19] Ibid.
[20] Ibid.
[21] Horne-Reinoso V., « Point de folie à l’ère du parlêtre », La Cause du désir, n°98, Paris, Navarin, 2018, p. 68.
[22] Ibid.
[23] Miller J.-A., « L’orientation lacanienne, Extimité » enseignement prononcé dans le cadre du département de psychanalyse de l’université Paris VIII, leçon du 27 novembre
1985, inédit.
[24] Lacan J., « Réponse au commentaire de Jean Hyppolite », (1954), Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 388.
[25] Lacan J., Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre», Texte établi par J.-A. Miller, leçon du 10 mai 1977, Ornicar ?, n°17-18, Paris, Navarin,
1979, p. 18.
[26] Laurent E., « L’étranger extime, I », Lacan quotidien, n°770, 22 mars 2018.
[27] Lacan J., Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre», Texte établi par J.-A. Miller, leçon du 10 mai 1977, Ornicar ?, n°17-18, Paris, Navarin,
1979, p. 18.
[28] Miller J.-A., « L’orientation lacanienne, Le tout dernier Lacan », Enseignement prononcé dans le cadre du département de psychanalyse de l’université Paris VIII, leçon du 14 mars 2007, inédit.
[29] Ibid.
[30] Milner J-C, « Back and forth from Letter to Homophony», Problemi international, vol. 1,n°1, 2017, Society for Theoretical Psychoanalysis.
[31] Lacan J., Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre », Texte établi par J.-A. Miller, leçon du 10 mai 1977, Ornicar ?, n°17-18, Paris, Navarin,
1979, p. 18.
[32] Miller J.-A., « L’orientation lacanienne, L’Être et l’Un », Enseignement prononcé dans le cadre du département de psychanalyse, leçon du 11 mai 2011, inédit.
[33] Miller J.-A., « L’orientation lacanienne, Le tout dernier Lacan », Enseignement prononcé dans le cadre du département de psychanalyse de l’université Paris VIII, leçon du 14 mars 2007, inédit
[34] Lacan J., « Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines », Yale University, Kanzer Seminar, 24 novembre 1975, Scilicet, 6/7, Paris, Seuil, 1976, p. 15.
[35] Lacan J., « Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse », Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 321.
[36] Miller J.-A., « L’orientation lacanienne, L’Être et l’Un », Enseignement prononcé dans le cadre du département de psychanalyse, leçon du 6 avril 2011, inédit.
[37] Lacan J., Séminaire XXII, « R.S.I », Séance du 11 février 1975. Texte établi par J.-A. Miller, Ornicar ? , n° 4, p.95-96.
[38] Ibid.
[39] Ibid., p. 96-97.
[40] Dictionnaire historique de la langue Française, Le Robert.
[41] Lacan J., Le Séminaire, livre VIII, Le transfert, texte établi par Jacques-Alain Miller, Paris, Seuil, 2001, leçon du 21 juin 1961, p. 433. – Lacan parle de la « jaculation célèbre de Pindare ».
[ 4 2 ] L a c a n J . , L e S é m i n a i r e X I I I , « L ’ o b j e t d e l a psychanalyse » (1965-1966), Séance du 1er décembre 1965, inédit
[43] Lacan J., Le Séminaire XII, « Problèmes cruciaux pour lapsychanalyse » (1964-1965), le 27 février 1965, inédit.
[ 4 4 ] L a c a n J . , L e S é m i n a i r e X I I I , « L ’ o b j e t d e l a psychanalyse », op.cit.
[45] Miller J.-A., « L’orientation lacanienne, Le tout dernier Lacan », Enseignement prononcé dans le cadre du département de psychanalyse de l’université Paris VIII, leçon du 14 mars 2007, inédit.
[46] Como destaca o trabalho coletivo muito interessante coordenado por Leonardo Gorostiza, Lacan en Bloque, Grama, 2017.

Tradução: Arryson Zenith Jr.


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Seminário 14 - A lógica do fantasma - Jacques Lacan



Em seu Seminário 14, A Lógica do Fantasma, Lacan aborda a “solução” encontrada pelo sujeito para ter sempre ao seu lado, aquilo que lhe pode velar o furo estrutural. O objeto a, causa de desejo, faz semblante para o sujeito daquilo que se perdeu, e como tal, carrega um resto de gozo. A cena fantasmática apresenta uma lógica que coloca o sujeito a mercê desse objeto caído, mas que tem “valor de”. Seria o escambo: o objeto pelo gozo ainda que contrabandeado, insuficiente, falho. Um objeto enganador que promete, mas não cumpre. $◊a, matema do fantasma.


Download das versões em:

Português 
(Traduzido pelo Centro de Estudos Freudianos do Recife a partir da versão da Associação Lacaniana Internacional)

Espanhol
(Versão crítica, por Ricardo Rodrigues Pontes)

Francês
(Staferla)