domingo, 12 de novembro de 2017

A teoria do parceiro - J.-A. Miller



"No início do seu ensino Lacan, colocava um problema para o sujeito: o de ter seu desejo reconhecido pelo Outro. Mas o conceito de Outro em Lacan se modifica, deixando de ser o Outro com a marca do significante fálico para aceder a um lugar de furo, de não resposta, de silêncio. O Outro sexual também se modifica e o sujeito terá que se relacionar com seu gozo, seu objeto a, semblante de objeto.
O parceiro então é o gozo; e o parceiro sexual será escolhido em função de como ele elabora seu saber sobre sua posição de exilado da relação sexual. Desta forma, é o sintoma, que passa a ocupar o lugar formal do núcleo de gozo. Surge uma nova teoria sobre o amor. Um amor que não passa pelo narcisismo, mas pelo inconsciente, ou seja, pela elucubração do saber da não relação sexual. Há o sintoma como um recurso para saber fazer com o outro sexo, que se torna um revestimento para o objeto a. O parceiro é assim o invólucro formal do núcleo de gozo. O que leva Lacan a dizer que no nível do sintoma o sujeito é sempre feliz.
Assim, se já podíamos pensar em um Deus janus, um que engana e um que não engana, podemos pensar em um objeto janus, um objeto fálico e um real, semblante de objeto. Mas também podemos falar em um sintoma janus, pois, como nos diz Miller, ele é o que não vai bem, mas é também o único lugar onde isso rola..."

Margarida Assad


Miller, J. A. (2000). Teoria do parceiro. In Escola Brasileira de Psicanálise, Os circuitos do desejo na vida e na análise (pp. 153-207). Rio de Janeiro: Contra Capa

Nenhum comentário:

Postar um comentário