quinta-feira, 6 de maio de 2021

Compreender Freud - Jacques Sédat



Este livro propõe entrar no consultório de Freud e segui-lo em suas descobertas, suas errâncias ou iluminações, suas tentativas e seus avanços, reconstruindo a gênese de suas descobertas mais decisivas, a partir de sua volumosa correspondência e diferentes escritos que testemunham questionamentos e instituições que marcaram o nascimento da psicanálise. Esse percurso pelas grandes etapas do pensamento freudiano pretende relembrar que o caminho iniciado por Freud não é nem fixo nem dogmático, pois ele desde cedo adquiriu a convicção absoluta para cada analisado conquistar seu lugar único e autônomo em uma posição de análise que exclui toda pretensão a um poder ou a um saber sobre o outro.


DOWNLOAD

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem - Joël Dor

 


Joël Dor consegue neste livro a mais feliz introdução à obra de Lacan. A preocupação pedagógica não sacrificou nem a integridade da obra (em busca de simplificações abusivas, caindo na vulgarização dos conceitos) nem o estilo inerente à mesma. Pelo contrário, o autor remete os neófitos aos pressupostos da teoria lacaniana, resgatando a historicidade dos conceitos e percorrendo a mesma via que Lacan fez, remetendo aos mesmos textos e às mesmas dúvidas que o impulsionaram. Enfim, mais que uma obra de acesso, ajuda a estruturar uma via de estudo àqueles que se aproximaram da obra de Lacan, servindo como guia para a leitura dos originais. 

DOWNLOAD 


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 

 Capítulo 1 O "retorno a Freud" 
 PARTE I LINGÜÍSTICA E FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE
 Capítulo 2 Condensação e deslocamento no trabalho do sonho 
 Capítulo 3 A noção de estrutura 
 Capítulo 4 Elementos de lingüística estrutural 
 Capítulo 5 O valor do signo lingüístico e o ponto-de-estofo em Lacan 
 Capítulo 6 Metáfora-metonímia e supremacia do significante 
 Capítulo 7 A condensação como processo metafórico 
 Capítulo 8 O deslocamento e o trabalho do sonho como processos metonímicos 
 Capítulo 9 O dito espirituoso como processo metáforo-metonímico 
 Capítulo 10 O sintoma como processo metafórico 

 PARTE II A METÁFORA PATERNA COMO "ENCRUZILHADA ESTRUTURAL" DA SUBJETIVIDADE 
 Capítulo 11 A prevalência do falo 
 Capítulo 12 O estádio do espelho e o Édipo 
 Capítulo 13 A metáfora paterna - O Nome-do-Pai - A metonímia do desejo 
 Capítulo 14 A forclusão do Nome-do-Pai – Abordagem dos processos psicóticos 
 Capítulo 15 A divisão do sujeito e o advento do inconsciente pela ordem significante 
 Capítulo 16 A referenda do sujeito: a alienação da linguagem 
 Capítulo 17 O sujeito do inconsciente - sujeito da enunciação - sujeito do enunciado 
 Capítulo 18 A alienação do sujeito no EU - O esquema L - A forclusão do sujeito 
 Capítulo 19 Dialética da consciência e dialética do desejo 

 PARTE III O DESEJO - A LINGUAGEM - O INCONSCIENTE 
 Capítulo 20 A necessidade - O desejo - A demanda 
 Capítulo 21 O grafo do desejo 1: do ponto-de-estofo à falação 
 Capítulo 22 A fórmula da comunicação e o inconsciente como discurso do Outro 
 Capítulo 23 O grafo do desejo 2: a criação de sentido na técnica significante do dito espirituoso e a subversão do sujeito do inconsciente na linguagem 
 Capítulo 24 O grafo do desejo 3: a conjugação do desejo com o significante 
 Capítulo 25 A "geração" do grafo

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Internet: suposto saber sem sujeito - Gilles Chatenay

 


Aproximar “saber” e “internet” nos convida evidentemente a pensar em nossas demandas neuróticas quase diárias ao Google ou ao Wikipedia. Ou ainda, em uma versão mais persecutória, à ASN (Agência de Segurança Nacional) e, menos agressivamente, às sugestões que nos são feitas quando fazemos nossas compras em um site comercial.

A internet sabe alguma coisa e sabe muito sobre nós, mais do que nós mesmos. Ela sabe onde nós estamos e onde estivemos, em qualquer lugar do mundo conectado, 24 horas por dia. Ela sabe até reconhecer o nosso rosto.

Mas o que é internet? Memória, algoritmos e conexões.

Nós supomos um saber à internet a cada vez que nos conectamos ou que estamos conectados sem nos dar conta, mas é um saber anônimo, aquele dos algoritmos que manipulam as memórias cifradas. Certamente eles são moldados e implementados pelas empresas e pelos Estados, mas empresas e Estados não são sujeitos; é delirante – a viralidade das teorias da conspiração – supor que seja assim.

O saber sem sujeito da internet se assemelha ao da ciência, que Lacan pôde qualificar como um empreendimento de forclusão do sujeito. Assim, esse saber se opõe à transferência propriamente psicanalítica, que supõe um sujeito para o saber. Ele é anônimo e, portanto, forclusivo do discurso da psicanálise, que supõe o desejo de determinado analista que vem se encontrar em carne e osso, e não virtualmente, com determinado analisando.

Eu disse que o saber suposto da internet se assemelha ao da ciência, pois se a concepção dessas memórias e desses algoritmos aplica os conhecimentos autenticamente científicos (como a estatística e a lógica) o que a motiva e a pressiona é outra coisa: os mercados e a política.

 

Financeirização

 

É o que a alimenta e lhe dá o seu poder: um certo regime contemporâneo do capitalismo mais do que as inovações tecnológicas, que certamente lhe dão os meios de sua extensão, mas que tiram sua fortuna da mercantilização de tudo em todos os lugares (globalização). A dinâmica da internet e da cifra é a da mais-valia, para seguir Lacan, a do mais-de-gozar, do objeto a, causa da avidez estrutural do capitalismo.

Esse regime contemporâneo é o de uma financeirização do capitalismo. Parece-me que – como na clínica psicanalítica - é nas crises que devemos buscar a lógica da sua dinâmica, lógica que se lê nos seus sintomas, antes de mais nada, as febres e as depressões dos mercados.

Levar tudo para todos os lugares impõe sua linguagem na lógica dos mercados. O que se troca nos mercados são valores e eles se escrevem em cifras. Quando se vende e se compra qualquer objeto concreto (petróleo, farelo de soja, etc), o preço da transação depende em parte de fatores materiais (escassez ou abundância, etc). Fatores materiais externos ao mercado – daí o termo (impróprio) de economia “real”: reais são esses fatores externos que restringem (em parte) os preços.

Mas há uma área onde essas cifras estão livres de todas as restrições externas, a dos mercados financeiros. A partir daí, as operações sobre eles – que, aliás, são massivamente desencadeadas e efetuadas por autômatos numéricos – são lançadas em função apenas dessas cifras. Em outras palavras, as cifras são o real das finanças.

Dizer que as cifras, que são escritas em moedas, são o real das finanças é dar à moeda um lugar central. Ora, a moeda, longe de ser um simples instrumento, longe de ser neutra, expressa um diagnóstico do estado clínico do laço social [1] – um laço social tem confiança, ou não, em sua moeda, ou seja, em última análise, em si mesmo.  Além disso, como alude o título da obra dirigida por Michel Aglietta e André Orléan, “A Moeda soberana”[2], a moeda tem a sua própria dinâmica.

 

Especularidade

 

Voltando à clínica dos mercados, eu dizia que às vezes eles ficam febris ou deprimidos. A confiança em uma medida comum, geralmente a moeda, e mais além, a confiança em uma convenção implícita que pode ser considerada muitas vezes inconsciente [3], podem ser atacadas. Os agentes da economia entram então em mecanismos que A. Orléan e M. Aglietta [4] qualificam de “miméticos”, onde tentam antecipar o valor com base no que supõem que seus semelhantes estão antecipando. Isso é se perder em um “concurso de beleza keynesiano [5]”, onde se trata não de votar no candidato que você gosta, mas de dizer qual candidato receberá mais votos. Os agentes são capturados numa lógica espelhada, uma lógica especular, binária, onde o imaginário esmaga a dimensão simbólica, para se referir apenas ao real lábil, senão sem lei, das cifras – lábil, visto que essas cifras são sensíveis às decisões dos agentes.

Lacan em “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache” formalizou em seus esquemas ópticos [6] a lógica especular do estádio do espelho[7].

No primeiro tempo, a criança, ainda sem coordenação corporal, antecipa uma unidade imaginária a partir da imagem de seu corpo no espelho, ou da imagem de um semelhante, ela jubila, goza e ao mesmo tempo se aliena a ela fundamentalmente. Essa imagem da unidade do eu, o eu ideal para nomeá-lo como Freud, é puramente imaginária, falaciosa, e instável uma vez que não tem ponto de referência externa. O “mimetismo” das derivas especulativas, ao que me parece, emerge desse primeiro tempo.

Mas há um segundo tempo. Cito Lacan no Seminário 8, A transferência, “É preciso dar, então, toda a sua importância a este gesto da cabeça da criança que, mesmo depois de ter sido cativada pelos primeiros esboços do jogo que faz diante de sua própria imagem, volta-se para o adulto que a carrega, sem que se possa dizer sem dúvida o que espera disso, se é da ordem de um acordo ou de um testemunho, mas a referência ao Outro vem desempenhar aí uma função essencial” [8].

Para a criança não basta a sua própria imagem ou a do seu semelhante, ela deve ser autenticada pelo Outro. O sujeito precisa de uma referência “exterior” para estabilizá-la.

E o fato de que o Outro seja chamado como referência, isso o torna um ideal, o ideal do eu freudiano.

O sujeito deve passar pelo Outro, e ele vê sua imagem no Outro, ou melhor, do ponto de vista do Outro. O sujeito demanda ao Outro seu acordo [accord] ou seu testemunho, e se ele obtém um ou outro, seu eu ideal estará (relativamente) estabilizado, sobre a base do Outro como referência. É necessário ainda que o sujeito tenha reconhecido neste sua legitimidade. Isso não está dado de antemão: alguns sujeitos, por exemplo, os psicóticos, se recusam a fazê-lo.

Nos mercados, qual instância poderia fazer a função do Outro? Uma instituição, precisamente: os Bancos Centrais, o Estado, o pagador de última instância, etc. Mas essas instituições são anônimas, são Outros, mas Outros abstratos, desencarnados. Ora, o acordo ou o testemunho, mesmo silenciosos, são atos de linguagem, e enquanto atos, eles podem ser realizados apenas por um falasser, isto é, supõem um sujeito, um desejo encarnado. Alan Greenspan, por exemplo, foi capaz de representar por meio de seus oráculos um sujeito suposto saber qual era o verdadeiro valor das trocas quando foi diretor do Sistema da Reserva Federal dos EUA, antes da crise de 2008 (que paradoxalmente é em grande parte atribuível às políticas de desregulação que ele mesmo havia implementado). E nos dias de hoje? A atual imprevisibilidade trumpiana me parece correlativa de uma paixão pelo mimetismo especular no nosso mundo “internetizado” – internetizado, pois isso não diz respeito apenas às finanças, aos mercados e à política, mas à internet, aos usos que nós fazemos dela e os usos que ela faz de nós.

Em suma, estamos lidando com uma regressão tópica ao estádio do espelho [9], para retomar os termos de Lacan. Mas se trata de uma regressão tópica ao primeiro ou ao segundo tempo?

 

Narcisismo

 

Primeiro tempo, segundo tempo: narcisismo primário freudiano, narcisismo secundário lacaniano? Lacan se opõe a Freud, para ele não há narcisismo primário. O primeiro tempo, onde prevalecem o imaginário e o real – a criança goza da unidade imaginária da sua imagem- corresponde a uma regressão pela qual o Outro desaparece sob a unidade fictícia, atemporal e instável do eu ideal: o segundo tempo precede logicamente o primeiro. E o tempo que eu chamei de primeiro nega a transferência, pois esta supõe uma demanda ao Outro.

Clotilde Leguil argumentou em um artigo do Le Monde que nós vivemos na era do narcisismo de massa. O que isso tem a ver com a internet? A abolição tendencial do espaço e do tempo, a horizontalidade (todos iguais, sem Outro) do dito primeiro tempo, encontram-se na própria lógica da internet.

Mas será que podemos reduzir a utilização da internet a uma regressão generalizada ao primeiro tempo do estádio do espelho? Para redigir esse artigo eu consultei várias vezes o Google e o Wikipédia, depois o enviei à redação da Escola La Cause Du Désir, por email, dentro do prazo.

Até mesmo as selfies – pelas quais tentamos valorizar e localizar nossa imagem tirando fotos com personalidades bem conhecidas, ou em locais famosos – tem uma estrutura próxima daquela do segundo esquema óptico de Lacan: um “segundo tempo” selvagem, uma demanda a um Outro que daria seu acordo ou seu testemunho, ou que ao menos faria referência. A paixão pelas selfies é sintomática da demanda repetitiva de que um Outro venha enfim responder pelo que somos e desejamos.

Sim, vivemos na era de uma hipertrofia do eu [11]. Uma hipertrofia correlativa a uma fragilidade do eu, que às vezes pode conduzir a uma demanda transferencial a um analista.

 

Subversão

 

Existem mecanismos nos quais somos capturados e nos quais nós nos prendemos. Mas qualquer que seja a tecnologia, quando é incorporada em uma sociedade, ou antes, em um laço social, vê-se transformada pelos usos que nós fazemos dela. As mensagens de texto são um bom exemplo (o Twitter, a meu ver, é uma declinação e uma amplificação delas). Originalmente, elas serviam apenas para que os técnicos de telefonia testassem as linhas. Nosso uso em massa tem sido, arrisquemos a palavra, uma subversão – aliás, às vezes, no sentido próprio do termo, como há pouco tempo no Irã, no Egito, etc. As tecnologias, inclusive das finanças, não são neutras, elas são atravessadas pelos usos contraditórios, elas são campos de batalha, e não somente políticos e econômicos.

Existe o Outro, e existe o que o sujeito faz dele. A subversão lacaniana do sujeito pode ser entendida em dois sentidos: o sujeito é subvertido e o sujeito subverte. Nossos usos da internet também podem sê-lo em alguns momentos e em alguns lugares.


Notas

1- Cf. Aglietta M., Orléan A., « La monnaie, réalité sociale », La Monnaie entre violence et confiance, Paris, Odile Jacob, 2002, p. 98 & sq. 

2- Cf. Aglietta M., Orléan A. (s/dir.), La Monnaie souveraine, Paris, Odile Jacob, 1998. 

3- Cf. Keynes J.-M., Théorie générale de l’emploi, de l’intérêt et de la monnaie, Paris, Payot, 1969, p. 167 : “[A] convenção consiste essencialmente [...] na hipótese que o estado atual das coisas continuará indefinidamente a menos que haja razões definidas para esperar uma mudança” 

4- Cf. Orléan A., L’Empire de la valeur. Refonder l’économie, Paris, Seuil, 2011 et Aglietta M., Orléan A., La Monnaie : entre violence et confiance, op. cit. 

5- Keynes J.-M., Théorie générale…, op. cit., p. 171. 

6- Cf. Lacan em “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache”, Escritos. Os esquemas ópticos aos quais me refiro são o da figura da página 680, que chamo de “primeiro tempo” do estádio do espelho e o da figura da página 681 para o “segundo tempo” 

7- Cf. Lacan em “O estádio do espelho como formador da função do eu”, Escritos. 

8- Cf. Lacan, Seminário 8, Zahar, p. 431 

9- Cf. Lacan, “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, Escritos 

10- Cf. Leguil C., « Nous vivons à l’ère d’une hypertrophie du moi” Le Monde, 27 de julho de 2017, disponível online 

11- Cf. ibid. 12- Cf. Lacan, “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”, Escritos. 

 

Tradução: Arryson A. Zenith Jr. 

Texto original em francês disponível em: https://www.cairn.info/revue-la-cause-du-desir-2017-3-page-41.htm


FAÇA O DOWNLOAD DESSE TEXTO EM PDF

domingo, 18 de abril de 2021

Sobre a vida do cartel: um Mais-um virtual? - Angelina Harari, Patricia Badari, Marilsa Basso, Teresinha M. Prado

 


O dispositivo do cartel foi estabelecido por Lacan em 1964, definindo os alicerces do trabalho da Escola: pequenos grupos de "no mínimo três pessoas e no máximo cinco[...]. Mais um encarregado da seleção, da discussão e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um”. [1]

E sua estrutura hoje? Um cartel cujas reuniões são realizadas principalmente com a ajuda de recursos como o Skype, ainda é um cartel? O cerne da questão é: que mudança podemos fazer na formação de um cartel que não nos impeça de continuar a considerá-lo como tal? Quais elementos da sua estrutura, se faltassem, nos impediriam de vê-lo ainda como um cartel?

Miller destaca [2], no dispositivo do cartel, sua função primordial de produção de saber: uma elaboração deve ser provocada, incitada, para fazer trabalhar os participantes dessa formação singular que difere do funcionamento típico de um grupo.

Lacan faz a mesma consideração em 1980, no momento da discussão sobre os efeitos deletérios das formações de grupo, as colagens e as identificações que bloqueiam a psicanálise. Nesse texto, ele retoma o conceito de mais-um: “será encarregado de velar pelos efeitos internos do empreendimento e de provocar sua elaboração” [3]

Se uma elaboração é sempre provocada no cartel [4], o agente provocador é o mais-um que deve completá-la, afastá-la da lógica do todo e da exceção, sem deixar de lado o fato de que ele também é um participante que deve elaborar um trabalho e um produto. Cabe ao mais-um operar como um provocador do trabalho, estimulando cada participante a abandonar as fórmulas estabelecidas e a parar de repetir os conceitos apreendidos pelo viés de frases canônicas, para poder elaborar suas próprias definições sobre aquilo que constitui o objeto da pesquisa, permitindo a passar do trabalho de transferência à transferência de trabalho.

Assim, a realização de um cartel sob o signo do “virtual” não afeta o cerne do dispositivo, que é a função do mais-um de fazer trabalhar os participantes, de ocupar esse lugar de agente provocador do trabalho.

Notas

1 – Lacan “Ato de fundação”, Outros Escritos, Zahar, p.235

2- Conforme Miller, “Cinco variações sobre o tema da elaboração provocada” disponível no blog Lacan em .pdf.

3- Lacan, Seminário 27, aula de 11 de março de 1980, p.51, disponível no blog Lacan em pdf

4- Conforme Miller, “Cinco variações sobre o tema da elaboração provocada” disponível no blog Lacan em .pdf.

 

Tradução: Arryson A. Zenith Jr.

Trecho extraído do texto “Conversation brésilienne. Incidences d’internet sur la pratique analytique : dans le respect du transfert” de Angelina HarariPatricia BadariMarilsa BassoTeresinha M. Prado, disponível em: https://www.cairn.info/revue-la-cause-du-desir-2017-3-page-31.htm


BAIXE ESSE TEXTO EM PDF

terça-feira, 13 de abril de 2021

A conversão de um século ao outro - Jean-Pierre Deffieux

 


A conversão de um século ao outro - Jean-Pierre Deffieux

 

O que muda no sintoma é a sua inscrição no campo do Outro e no campo da cultura [1].

Essa historicidade do sintoma, a conversão histérica que presidiu o nascimento da psicanálise, está aí para testemunhar isso. Ela foi O sintoma por excelência, primeiro na clínica neurológica de uma época, depois na clínica psicanalítica em seus primórdios. Essa eflorescência de paralisias, contraturas, anestesias, quedas e dores foram a forma sintomática segundo a qual os sujeitos histéricos responderam pelo sintoma a um Outro médico no final do século passado.

Tomados na epidemia, todos os fenômenos de corpo que se manifestavam de forma idêntica foram então classificados sistematicamente do lado das conversões histéricas.

Hoje os tempos mudaram, a epidemia mudou, e o sintoma de conversão histérica ao longo dos anos, na sua forma neurológica originária perdeu seu brilho.

Como resultado, toda uma clínica de fenômenos de corpo, já presente no século anterior, extraída do amálgama conversivo da época, aparece agora em sua pureza. Uma base sólida deve ser dada a esses fenômenos na estrutura, do lado da psicose.

Se o fenômeno histérico mudou em sua forma, seu mecanismo não mudou. A transposição da energia libidinal desligada da representação, no corporal, descrita por Freud em 1894, permanece e permanecerá um ponto de certeza clínica anistórico. [2]

O que também não muda é a primazia da estrutura sobre o sintoma que Freud estabeleceu desde 1905. Se ele escolhe fazer de Dora um caso exemplar é porque ela apresenta apenas sintomas de conversão menores e porque ela demonstra a lógica estrutural quaternária que desde então servirá de orientação na clínica da histeria. [3]

É dessa lógica que decorre a escritura do discurso da histérica no Seminário XVII, O Avesso da Psicanálise, que serve de bússola para identificar a estrutura histérica na prática.

 

Novas formas do sintoma de conversão

 

As formas que as conversões histéricas assumiram nos nossos dias estão totalmente apagadas pela psiquiatria contemporânea sob o DSM-4, que classifica todos os fenômenos de corpo sob o título único de transtornos somatoformes, o que faz desaparecer a especificidade do mecanismo da conversão.

Essa posição não é admitida pela simples observação clínica. Ela tem, no entanto, o mérito de lançar luz sobre um fenômeno bastante atual e cada vez mais freqüente que é o das somatizações.

A dor nas costas, por exemplo, tornou-se hoje em dia muito comum. Mas não há razão para fazer dela um sintoma típico da histeria moderna, pois constata-se, é claro, que ela é transclínica. Devemos de fato evitar confundir a estrutura e a identificação histérica que pode afetar a todos.

A psicanálise deve identificar o que mudou no campo do Outro, há um século, para o sujeito histérico e suas conversões: a histérica, de todos os tempos, foi solidária do mestre cuja castração ela denuncia. As conversões neurológicas foram a resposta ao mestre médico que desde então perdeu completamente o seu lugar de mestre.

Lacan em 1966 em sua intervenção sobre o lugar da psicanálise na medicina predisse que o médico se tornaria um técnico a serviço da ciência médica e denunciou “o efeito que o progresso da ciência teria sobre a relação da medicina com o corpo”. Ele deu a esse efeito o nome de falha epistemo-somática”. [4]

Hoje em dia é muito mais da ciência médica que o sujeito histérico é solidário para construir seus sintomas ao denunciar essa falha epsitemo-somática.

Seus sintomas de conversão interrogam a ciência médica moderna que se endereça a um corpo excluindo a relação do sujeito com o gozo.

Já conhecemos há muitos anos em nossas sociedades a relação da mulher histérica com a especialidade médica que decide sobre a procriação desprezando a causa do desejo.

Um exemplo muito mais moderno nos abre perspectivas sintomáticas para o início do próximo milênio. Um programa do tão sério canal Arte mostrou recentemente o uso científico ofertado à mulher histérica para quebrar a “proibição fálica”. Vimos, assim, a realização literal do que Lacan anunciou em 1958: “Será porventura preciso que se nos alie a prática, que em algum momento talvez adquira força de uso, de inseminar artificialmente as mulheres, desrespeitada a proibição fálica, com o esperma de grandes homens, para que extraiam de nós um veredito sobre a função paterna?”. [5]

O canal Arte apresentou na América do Norte o que é chamado de associações de mães solteiras, constituídas por mulheres que fazem a escolha deliberada – sem apresentarem sintomas de infertilidade – de se submeterem a procedimentos de inseminação artificial de doadores desconhecidos para darem à luz a “filhos sem pai” – esse é o termo oficial. Essas associações, agora muito bem organizadas, oferecem a essas mulheres a oportunidade de construírem pelo computador o retrato robótico do doador de sua escolha, o futuro pai virtual. O esperma é então selecionado a partir dessa escolha.

Ainda mais exemplar da clarividência de Lacan, vimos um homem, responsável por uma associação pesquisar no “Who Who”, os perfis físicos e intelectuais ideais do futuro doador com quem ele entraria em contato.

Em seguida nos é apresentado o mercado da fertilidade em Montreal, onde, como uma feira de exposição, uma multidão de estandes fazia o artigo sobre a qualidade e a garantia de fertilidade do esperma colocado à venda. Essa reportagem mostrou de maneira muito perspicaz o júbilo dessas mulheres com a ideia de prescindir do homem e do falo para ter um filho. Mas esse júbilo desapareceu em seguida para dar lugar ao sintoma: depois de uma dezena de inseminações malsucedidas, as jovens exaustas e deprimidas abandonaram decepcionadas seus projetos. Algumas acabaram engravidando e não esconderam seu desânimo com a chegada do filho. Uma delas guardava preciosamente a multa do estacionamento do centro de inseminação para poder mostrar ao filho no dia em que ele se preocupasse em saber quem era seu pai.

Esse exemplo mostra, mais uma vez, que a histérica sempre esteve desde a antiguidade à frente de seu tempo. As conversões à la Charcot há muito tempo não as interessam mais e os psicanalistas tem um real interesse em seguir as mutações do Outro da histérica e não mais procurar seus sintomas do lado de lá.

 

A leitura psicanalítica da hipocondria

 

Do lado de lá há muito mais para se descobrir, pois os fenômenos de corpo clássicos todavia ainda não desapareceram neste final de século.

Um estudo baseado em uma série de dez pessoas acompanhadas por um psicanalista por pelo menos seis meses, relata, sem detalhar sua história clínica, as linhas de força estruturais desses fenômenos.

Apresentamos aqui cinco delas:

1-      Uma moça de 20 anos foi encaminhada por uma fixação obsessiva em uma dor de dente aguda que a fazia sofrer constantemente desde os 4 anos de idade.

2-      Uma mulher de 50 anos apresentou no curso de sua análise, iniciada vários anos atrás, um desconforto e uma dor que circulava por todo o corpo e que provocava rigidez nos movimentos e no andar; dez anos antes do início de sua análise, após duas intervenções cirúrgicas ela ficou paralisada por dois anos.

3-      Fabiana, 22 anos, foi acompanhada durante uma hospitalização devido a fortes dores paralisantes nos quatro membros, que se resolveu após três meses de tratamento.

4-      Carla, 20 anos, está em entrevistas psicanalíticas há dois anos porque apresenta uma espasticidade e um bloqueio dos membros inferiores que dificultam a marcha e que se seguem a quedas repentinas que põem em risco sua vida.

5-      Uma jovem de 30 anos sofre de anorexia muito grave por um período no fim da adolescência, e de transtornos digestivos acompanhados de dores que invadem sua vida psíquica.

 

Todos esses sujeitos são do sexo feminino. Por um lado, encontramos esses fenômenos de corpo bem mais frequentemente em mulheres e, por outro lado, optamos por incluir apenas mulheres nesse estudo para nos colocarmos no mesmo terreno das conversões histéricas.

Tentamos afirmar a estrutura procurando primeiro demonstrar a neurose, isto é, os efeitos da inscrição do sujeito no discurso da histérica, e essa pesquisa nos levou a cada vez a nos afastar dessa estrutura.

Por outro lado, é antes o velho termo psiquiátrico clássico da hipocondria, hoje quase esquecido, que pensamos para esses sujeitos, mas devemos dar a esse termo uma nova definição esclarecida pela nossa teoria psicanalítica atual.

Em todos esses sujeitos encontramos associado ao fenômeno corporal, em um momento ou outro, um elemento de sensibilidade, podendo chegar em alguns deles até a emergência de um elemento interpretativo. Em um desses casos, a sensibilidade sempre esteve presente desde a infância; em um segundo caso, vimos surgir durante o tratamento uma fixação persecutória com o terapeuta que foi acompanhada de uma diminuição acentuada do fenômeno corporal; um terceiro caso, ainda mais revelador, uma verdadeira oscilação rítmica apareceu entre os momentos interpretativos e as manifestações do fenômeno corporal. Esses indícios da estrutura paranóica sempre permaneceram mascarados ou discretos e difíceis de detectar.

Em vários desses sujeitos, nós constatamos que a parte do corpo onde ocorriam os fenômenos tinha assumido para eles um valor do Outro. Toda a sua relação com o mundo e sua organização estava subordinada a esse laço que se tornara ao mesmo tempo seu tormento e seu suporte essencial. Constatamos ao mesmo tempo que essa parte do corpo lhes tornou-se estranha, eles a consideravam como não pertencente a eles, funcionando de maneira bastante autônoma e eles reclamavam que não tinham controle sobre ela.

A mobilidade do gozo entre os fenômenos sensoriais e corporais, bem como a função do Outro que uma parte do corpo pode ter assumido para esses sujeitos, referem-se à conhecida definição dada por Lacan em 1966 para a paranóia: “a paranóia como identificador do gozo no lugar do Outro como tal” [6]. Nos casos encontrados nesse estudo, deve-se antes argumentar que a hipocondria identifica o gozo no lugar do corpo como Outro.

 

Fenômeno não é sintoma

 

Esses fenômenos de corpo que comparamos à hipocondria não podem ser considerados como tendo um estatuto de sintoma no sentido que Lacan dá ao final de seu ensino, e não apenas porque não são, como o sintoma de conversão histérica, uma formação interpretável do inconsciente.

Dois sujeitos que entraram no nosso estudo, Carla e Fabiana, vêm aqui para mostrar isso. O vínculo que essas duas jovens tinham com o seu pai não deve ser confundido com o laço de amor do sujeito histérico pelo seu pai porque se tratava nesses casos de uma alienação, tal como podemos ver somente na psicose, isto é, um laço ao pai ao mesmo tempo imaginário e real, sendo o pai ao mesmo tempo especular e o Outro absoluto.

Carla fazia quedas graves que chegaram a provocar uma fratura do crânio e que, desde então, foram seguidas pela quase impossibilidade de dar um passo. Acabamos por descobrir sem que ela mesma pudesse estabelecer os laços causais, que o antigo negócio da família de seu pai que representava para ela seu ideal de vida futura (ser como o pai) havia falido algum tempo antes do começo das suas quedas e que o pai que até então fazia par com a sua filha tinha quase a derrubado.

Fabiana que apresentava dores agudas nas mãos e nos pés havia usado todas as noites durante oito anos uma casca de gesso para tratar uma escoliose grave. É o seu pai quem todas as noites amarra o corpete em suas costas. No dia em que o corpete foi retirado, ela não mais “se sentiu apoiada”, diz ela. Algum tempo depois, em um momento onde seu pai estava muito doente e com dores, o fenômeno doloroso surgiu nos quatro membros, área do corpo da filha que o pai não conteve.           

Foi a falência do pai e o seu “deixar cair” no primeiro caso e a perda da contenção do corpo pelo pai no segundo caso que provocou o surgimento dos dois fenômenos de corpo. A particularidade do laço ao pai, a amarração do imaginário e do real, responde nesses sujeitos à sua forclusão simbólica. Ora, é surpreendente notar que foi no momento de ruptura desse laço paterno que surgiu o fenômeno hipocondríaco que amarra o imaginário do corpo ao real do gozo. Houve uma espécie de transferência, um deslocamento, do nó IR do pai ao corpo. Por isso, não há razão para considerar esse fenômeno como um sintoma, ainda que ele consiga por outro lado limitar, bordear o gozo a ponto de que não se produza nenhuma outra manifestação da psicose. Acontece também que esses sujeitos passam a elaborar, a partir do fenômeno, um saber delirante que passa a dar sentido a isso.

Esse fenômeno de corpo a ser distinguido de um sintoma evoca o fenômeno psicossomático, que é outra modalidade não sintomática do retorno do gozo no corpo. O percurso que este artigo segue, que vai da histeria aos “novos fenômenos de corpo”, é apenas um esboço de uma pesquisa necessária sobre as surpresas que o corpo nos reserva à medida que entramos no século XXI.

Portanto, não será questão aqui de conclusão.

 

Notas

1. MILLER J.-A. et LAURENT É., «L’Autre qui n’existe pas et ses comitês d’éthique» (1996-1997) (inédit).

2. FREUD S., «Les psychonévroses de défense», Névrose, psychose ET perversion, Paris, PUF, 1894, p. 4.

3. FREUD S., «Fragment d’une analyse d’hystérie», Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 1905.

4. LACAN J., «La place de la psychanalyse dans la médecine», Extrait de Cahiers du Collège de médecine n°12, Expansion, 1966, pp. 761-774.

5. LACAN J., «Subversion du sujet et dialectique du désir», Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 813.

6. LACAN J., «Présentation des Mémoires du président Schreber», Ornicar ? n°38, Paris, Navarin, 1986, p. 7.

 

Tradução: Arryson A. Zenith Jr.

Extraído de: La Cause Freudienne, 38, Fevereiro 1998, p. 27-31


FAÇA O DOWNLOAD DESSE TEXTO

quinta-feira, 18 de março de 2021

A vida e a obra de Sigmund Freud - Ernest Jones vols. 1, 2 e 3 (1989) [PT/ES]

 


Esta biografia da autoria de Ernest Jones é considerada, por unanimidade, quase definitiva. Com a cooperação ativa da família de Freud e o acesso a milhares de cartas e documentos não publicados, Ernest Jones - íntimo amigo e colaborador de Freud - oferece um quadro completo da personalidade e da vida pessoal do gênio da Psicanálise juntamente com a fascinante determinação das influências e contexto que o conduziram às suas descobertas sobre o comportamento humano. 
Ernest Jones, um dos líderes do círculo de Viena de Freud, foi seguramente o mais poderoso administrador da Psicanálise, havendo sido o instrumento de introdução das idéias freudianas na Inglaterra, Canadá e Estados Unidos. Sua influência se tornou evidente em toda a história e desenvolvimento da Psicanálise. Sua longa convivência pessoal com Freud - mais de trinta anos -, o rigor da pesquisa, além do fato de ter sido protagonista, desde o início, do movimento psicanalítico conferem a Jones a condição do biógrafo de Freud. 
Esta obra em três volumes apresenta, em detalhes dramáticos, a infância e a adolescência de Freud; seu noivado e casamento com Martha Bernays através de 900 cartas de amor; a liberação de seus poderes criativos mediante a auto-análise; as lutas amargas pelo reconhecimento e seu assentimento à fama. É de interesse particular a descrição gráfica, de Jones, de como Freud penetrou nos mistérios dos sonhos e da sexualidade e desenvolveu a ciência da Psicanálise. 
"A VIDA E A OBRA DE SIGMUND FREUD", de Jones, tornou-se um clássico da Psicanálise de leitura e referências a todos aqueles que seriamente desejam estudar e conhecer a Psicanálise.
O The New York Times Book Review retratou na crítica de Lionel Trilling: "É difícil imaginar uma história melhor do desenvolvimento das idéias de Freud ou da mente que as concebeu que esta oferecida pelo Dr. Jones". 
A revista Time qualificou a obra de Jones como "uma obra-prima da biografia contemporânea". Com o lançamento de "A VIDA E A OBRA DE SIGMUND FREUD", de Ernest Jones, a IMAGO EDITORA pretende homenagear Freud e o público brasileiro neste ano, "1989, 50 ANOS SEM FREUD".

DOWNLOAD


Português


VOLUME 2 (disponível em breve)
VOLUME 3 (disponível em breve)


Espanhol 


(Vida y obra de Sigmund Freud)

quarta-feira, 10 de março de 2021

A Topologia de Jacques Lacan - Jeanne Granon-Lafont [PT/ES]

 




A topologia escapa aos limites da épura, da mesma forma que o pensamento psicanalítico criado por Freud escapa aos limites da lógica cartesiana. Foi, certamente, com base nesta evidência que Lacan lançou mão do raciocínio contido nas figuras topológicas, num esforço para construir um suporte de algum modo científico, ao mesmo tempo que esclarecedor, aos achados freudianos e àqueles por ele mesmo introduzidos na teoria. 
Não se trata aqui de desenvolver cálculos ou estudos de formulações topológicas, mas sim de aplicar uma prática que vem resgatar a utilização do desenho, sem exigências de precisão quanto à sua execução, porém como um recurso de escrita simbólica na tentativa de resolver as dificuldades de representação colocadas pela torção das superfícies - uma questão central da topologia, há muito esquecida pelos matemáticos, e fundamental para a psicanálise. 
E, à medida que Lacan avança seus estudos em busca de resoluções aos problemas impostos pela psicanálise conforme Jeanne Granon-Lafont nos aponta com precisão e clareza neste volume, ele acaba por fazer com que o pensamento psicanalítico interfira na topologia, criando, com o uso sempre crescente do corte sobre as superfícies, uma trajetória e uma nova abordagem ao estudo dos nós. 

LUIZ CARLOS MIRANDA


DOWNLOAD